A escravidão transatlântica e a influência da África sobre a Europa
Igreja autorizou escravidão na África copiando o Islã. Portugal se africanizou, e negro“brasileiros”voltaram à África como traficantes. Escravidão é velha. Junte-se a nós no Telegram , X e VK . Escreva para nós: info@strategic-culture.su Já que falamos de encíclica, outro assunto que Leão XIV trouxe à tona é o da escravidão. No parágrafo 176 da Magnifica Humanitas , ele menciona que a Igreja precisou esperar dezoito séculos para condenar de maneira “absoluta, formal e universal” da escravidão, coisa feita pelo seu antecessor Leão XIII. A cobertura da imprensa destacou somente o pedido de perdão. Isso é conveniente para o establishment , porque mantém nas mentalidades a equivalência errônea entre “escravidão” e “escravidão de negros nas Américas”. Essa confusão faz crer que a escravidão é um subproduto do racismo científico e do supremacismo branco, caracterizado pela posse formal de um ser humano como propriedade. Na realidade, porém, a escravidão é um fenômeno do qual se tem notícia nos primórdios de toda história humana: foram escravos e donos de escravos os europeus, os asiáticos, os americanos pré-colombianos, os africanos ao norte e ao sul do Saara, bem como os homens da Oceania. A escravidão é muito mais velha do que o racismo e o supremacismo branco, que são doutrinas modernas. No caso das Américas, essa confusão ainda faz esquecer a escravidão indígena, costumeira na Ibero-América apesar da legalidade duvidosa, bem como o sistema de indentures , uma espécie de escravidão por dívidas que levou muitos brancos, inclusive à força, para a América inglesa. Se formos procurar nos documentos papais pela origem do grande comércio transatlântico de escravos, teremos a bula Dum diversas (1452), publicada no contexto das guerras contra o Império Otomano – o grande império escravista responsável por sequestrar europeus no Mediterrâneo para vender na África, e por dar aos europeus do Leste o nome de eslavos, isto é, escravos. O Império Otomano era também o inimigo histórico das cruzadas, pois era deles que os cristãos queriam libertar a Terra Santa. Havia, então, um grande ânimo cruzadista em Portugal, deslocado em tempo e espaço: da Idade Média para os albores da modernidade, e da Terra Santa para o Norte da África. 126 anos depois da Dum diversas, Portugal veria o rei guerreiro D. Sebastião desaparecer para sempre em batalha no Marrocos. Nesse contexto, a Igreja, por meio da Dum diversas , permitiu que Portugal reduzisse à escravidão os sarracenos e os pagãos na África Ocidental derrotados na guerra. Em 1455, a bula Romanus Pontifex garantiu-lhe monopólio comercial; isto é, um monopólio frente aos demais países. (Um século depois, essa ideia de a Igreja conceder monopólio comercial sobre terras alheias seria imitado pelas coroas protestantes. Na falta de países concorrentes, os privilegiados seriam empresas específicas: as famigeradas chartered companies , que chegaram ao século XX após cometerem alguns genocídios.) E em 1493, a Espanha aparece na Inter caetera , que divide entre Portugal e Espanha o mundo por descobrir. Ao usar o paganismo para permitir a escravização, a Igreja não estava introduzindo nenhuma novidade na África. Ao contrário, estava copiando o islã, que se expandiu pela África escravizando o infiel, o kafir , o cafre. A Romanus Pontifex fazia da escravização um meio de cristianização: Portugal ficou incumbido de cristianizar os negros que escravizava na África. Aos muçulmanos, porém, não convinha a islamização dos negros, já que a xaria proibia a escravização de muçulmanos nascidos livres. Com uma lei dessa, o leitor pode muito bem imaginar a confusão na África negra que misturava escravidão e religião: era possível um negro nascido livre simular a conversão ao islã só para não poder ser escravizado, e ser denunciado por isso; era possível, também, ser um muçulmano convicto nascido livre, porém não ter como provar isso. Tamanhos conflitos redundavam em mais guerra, que redundava em mais escravidão. E escravidão redundava em dinheiro para as elites escravocratas africanas. A falsa história da escravidão dos negros nas Américas é racista, pois retrata o homem branco como o único dotado de agência, enquanto que o negro é um simples objeto que se move por mágica até o navio negreiro. Há de ter sido por mágica, pois os europeus não adotaram o método Barba Roxa de capturar escravos em praias estrangeiras e, não obstante, os navios seus se enchiam de negros. Para se ter uma ideia da agência negra na escravidão, leve-se em conta que o primeiro embaixador a reconhecer a independência do Brasil foi um certo preto Manoel Alves de Lima, “cavaleiro de Nosso Senhor Jesus Cristo e Santiago da Espada, coronel da Corporação da Ilha de São Nicolau, embaixador de Sua Majestade Imperial de Beni dos Reis de África”. Ele representava “o obá [i. e., senhor] Osemwende, do Benim, e o obá Osinlokun, de Lagos”, que “foram, dessa forma, os primeiros soberanos a reconhecer a independência brasileira” (Alberto da Costa e Silva, Um rio chamado Atlântico ). Tamanho empenho nas relações com o Brasil se devia à intenção dos reis africanos de manter o comércio de escravos, que estava ameaçado pela pressão inglesa. Por que um preto de África tinha nome português, ostentava títulos com forte sabor ibérico e representava áreas nas quais hoje se fala inglês? Afinal, quando se fala em África Portuguesa, vêm à mente Angola e Moçambique, não a região do Golfo da Guiné. O motivo é o mesmo pelo qual a capital da Nigéria tem nome em português – Lagos – e pelo qual a Bahia é cheia de negros: a espécie de colonização reversa promovida pelos “brasileiros” do Golfo da Guiné. Conforme explica o africanólogo Alberto da Costa e Silva em Um rio chamado Atlântico , na Nigéria e no Benim existem até hoje comunidades “brasileiras” fundadas por negros que foram parar no Brasil como escravos, conseguiram ascender socialmente e voltaram para a África falando português, construindo sobrados com arquitetura brasileira, exercendo profissões aprendidas no Brasil e casando-se entre si. Entre essas profissões estava, naturalmente, o “trato dos viventes”, o comércio de escravos. Ao contrário da América inglesa, onde os brancos podiam quitar da indenture mas o negros jamais deixariam de ser propriedade, no Brasil tanto a escravidão quanto a liberdade dos negros eram negócios aquecidos, e não era muito difícil um escravo urbano conseguir comprar a própria alforria. Os “brasileiros” em Lagos ofereciam concorrência agressiva aos portugueses escravistas em Angola e Moçambique. O Brasil recém-independente viu-se alvo de pressões econômicas estrangeiras e internas a favor e contra a escravidão. Por pressão inglesa, proibiu oficialmente a importação de escravos em 1831 com a Lei Feijó, que passou à história como lei “para inglês ver”, porque o governo decidiu não aplicar. Em 1845, a Inglaterra passa a Lei Aberdeen, que autoriza a Marinha inglesa a interceptar navios brasileiros, e, após vários reveses financeiros, o Brasil finalmente decide criar uma lei em 1851 e implementá-la. Os “brasileiros” de Lagos continuaram os seus negócios e seguiram vendendo escravos para Cuba até serem conquistados pela Inglaterra em 1861. Depois, os ingleses tentaram apagar a identidade brasileira chamando a comunidade de “iorubás retornados”. Como mostra Alberto da Costa e Silva, o motivo da campanha abolicionista inglesa era, na verdade, o sufocamento financeiro dos soberanos africanos, que tinham na venda de escravos o seu principal ativo financeiro. Se os obás da Guiné não tinham forças para impor a escravidão ao Brasil, com certeza as tinham a clientela dos seus parceiros comerciais no Brasil: os velhos senhores do açúcar no Nordeste e os novos barões do café no Sudeste. Tanto que a Abolição da escravidão levou à abolição da monarquia: menos de dois anos depois de a Princesa Isabel acabar com a escravidão, proclamou-se a República com o apoio dos barões do café. Não obstante, o fato é que a escravidão negra sempre causou embaraços morais no Brasil. No século XVI, o Pe. Antônio Vieira tentava dourá-la dizendo que os negros eram os filhos prediletos de Maria, por seus sofrimentos na terra. O historiador Eduardo França Paiva (cf. Como ensinar história da escravidão? ) chega a dizer que, no começo do XIX, a escravidão era um tabu no qual só José Bonifácio ousava tocar. A campanha abolicionista moveu não só jornalistas de classe média, mas também pobres analfabetos livres, como os jangadeiros de Redenção no Ceará, cuja greve fez com que essa província, na qual não havia produção de açúcar nem café, fosse a primeira a abolir a escravidão (em 1884, 4 anos antes do Brasil). De fato, a escravidão negra na Ibero-América causou o retorno súbito de instituições do Império Romano que já haviam perecido na Idade Média, quando a condição de servo não dava ao senhor o direito de vendê-lo como um bem móvel. Essa mudança brusca nos rumos da cristandade só pode ser explicada por meio do contato com a África islamizada. Ao adentrar a África, Portugal africanizou-se, e, por seu intermédio, africanizaram-se a Europa e as Américas.