EUA compram votos na ONU para asfixiar a economia cubana e acabar com sua soberania


É impossível haver igualdade nas relações entre países dentro de um mesmo organismo multilateral enquanto existir uma superpotência econômica e militar capaz de subjugar os países menores. Junte-se a nós no Telegram , Twitter e VK . Escreva para nós: info@strategic-culture.su No artigo anterior, revelamos como relatoras das Nações Unidas funcionam como um instrumento de pressão imperialista contra Cuba . Do mesmo modo que os “especialistas” em sanções contra a Coreia do Norte , elas foram treinadas por instituições que ensinam os dogmas da ideologia imperialista e depois foram recrutadas para aplicar esses dogmas em fundações e ONGs financiadas pelos grandes magnatas dos países imperialistas (EUA e União Europeia). Desta forma, seu currículo se enquadra perfeitamente nas necessidades dos órgãos da ONU, para os quais foram selecionadas. Em resumo: o imperialismo treina, experimenta e recruta funcionários capacitados e fiéis para trabalharem em prol da manutenção de sua dominação sobre o mundo – e o ápice da carreira de muitos desses burocratas é justamente um alto cargo em um importante órgão das Nações Unidas.

Mas a inserção de funcionários obedientes e leais à doutrina imperialista, que seguem à risca as diretrizes da CIA e do Departamento de Estado, não é a única forma pela qual os Estados Unidos, particularmente, garantem seu controle sobre as decisões dos órgãos da ONU. Afinal de contas, os burocratas das Nações Unidas não têm poder total sobre a organização. Muitas das instâncias são decididas pelo voto dos representantes dos Estados-membros. Daí a importância de também manipular esses votos.

E Cuba sabe muito bem como isso funciona. Quando a União Soviética e os regimes aliados do Leste Europeu estavam desmoronando, os Estados Unidos olharam para Cuba como a próxima vítima da contrarrevolução e passaram a exercer uma pressão contra a ilha que não era vista desde a Crise dos Mísseis. Os novos regimes capitalistas no Leste Europeu romperam a cooperação econômica com a nação caribenha, ao mesmo tempo em que Washington recrudesceu o bloqueio econômico, comercial e financeiro.

A tentativa de asfixia e isolamento de Cuba veio também através das Nações Unidas. E desde o início estava nítido qual era o objetivo norte-americano. Em 1988, os próprios aliados dos EUA declaravam que a proposta apresentada por Washington na então Comissão de Direitos Humanos sobre supostas violações humanitárias em Cuba deixava “transparecer uma clara motivação política, em lugar de uma preocupação humana”.

O representante norte-americano na Comissão era Armando Valladares, um ex-policial da ditadura de Fulgencio Batista, preso após a revolução cubana por seu envolvimento na repressão contra o próprio povo e que depois foi viver nos Estados Unidos, onde foi naturalizado para servir ao governo Reagan. Ninguém levava a sério sua preocupação com direitos humanos.

Conforme reportagem da época publicada pelo El País , em uma reunião a portas fechadas com os representantes ocidentais na Comissão, uma semana antes da votação, “Valladares ameaçou veladamente quem não apoiasse a proposta norte-americana. Indicou que os Estados Unidos considerarão uma atitude hostil os votos contrários à sua resolução”.

Com essa arma na cabeça, apontada pela maior potência do mundo, a partir de 1990 a Comissão aprovou repetidas resoluções sobre a situação humanitária em Cuba. Elas acusavam Havana de restringir liberdades civis e políticas, exigiam cooperação com mecanismos criados pelo imperialismo e inventavam mandatos de observação e investigação que interferiam na soberania e na política cubanas através de visitas de supostos técnicos e especialistas.

Essas medidas aprovadas pela Comissão, no entanto, ignoravam deliberadamente o verdadeiro agravante da situação humanitária em Cuba: o fortalecimento do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos havia 30 anos, e que agora chegava ao seu auge com o isolamento completo da ilha, gerando o que em Cuba chamou-se de “Período Especial”. Faltava comida, remédios, combustível, material de construção e todos os bens essenciais para o mínimo bem-estar da população porque o conjunto de sanções unilaterais dos EUA (que se estendiam para qualquer país que pensasse em cooperar com Cuba) impedia o comércio de Cuba com o mundo.

Foi essa hipocrisia que o representante de Cuba na Comissão denunciou em uma reunião de abril de 2003 em Genebra. Naquela oportunidade, foi aprovada uma resolução de pressão contra Cuba sobre supostas violações de direitos humanos, por 24 votos favoráveis contra 20 votos contrários. Ao mesmo tempo, a sessão rejeitou (por 26 votos contrários e 17 favoráveis) uma emenda apresentada por Havana que pedia o fim do bloqueio dos Estados Unidos.

Juan Antonio Fernández Palacios afirmou que aquela era uma manobra grosseira, completamente desacreditada e imoral, cujo único objetivo era criar pretextos para justificar o bloqueio genocida e a política de agressão que o governo dos Estados Unidos pratica contra Cuba por décadas. Ele também chamou de “espúria” a tentativa da Comissão de condenar o governo cubano e disse que o órgão enfrentava uma profunda crise de credibilidade.

O delegado cubano denunciou a pressão exercida pelos EUA sobre alguns países, notadamente latino-americanos, para aprovar resoluções que ele afirmou serem escritas em Washington. Ele mencionou confissões feitas pelos representantes do Peru, Uruguai e Costa Rica, que sofreram diretamente chantagens dos Estados Unidos para votar contra Cuba.

Aquele era o momento do auge do domínio norte-americano sobre o globo: o Afeganistão e o Iraque estavam sendo invadidos e o Consenso de Washington prevalecia, sobretudo através de regimes neoliberais títeres na América Latina. “Muitos de seus membros [da Comissão] haviam sido aterrorizados por uma tirania mundial que grupos fascistas de extrema-direita tentavam impor ao resto dos povos do mundo, a partir do poder usurpado fraudulentamente do país mais poderoso da Terra”, denunciou Fernández.

Mas desde 1990 a Comissão já condenava Cuba, com a única exceção de 1998 – quando tentou-se um outro caminho para derrubar a Revolução Cubana, a pressão do Vaticano com a visita do papa João Paulo II. Na votação de 2001, que acusou Cuba de não garantir os direitos humanos, as liberdades fundamentais, o estado de direito, as instituições democráticas e a independência do judiciário (o mantra para a mudança de regime), “os níveis de pressão foram inusuais, como nunca antes, usando grosseiramente todos os elementos a fim de conseguir a aprovação da resolução anticubana” pelos EUA, denunciou o então chanceler Felipe Pérez Roque.

Ele revelou que o governo de George W. Bush havia “pressionado e chantageado” diversos países africanos para que votassem contra Cuba, ameaçando excluí-los da Lei de Crescimento e Oportunidades Econômicas da África caso não acompanhassem o voto norte-americano. “Como se isso não bastasse, em outros casos, eles chegaram ao ponto de oferecer assistência na luta contra a AIDS em alguns países, caso esses países renunciem à sua atual posição de apoio a Cuba”, comunicou à época o Ministério das Relações Exteriores.

Diplomatas norte-americanos e britânicos, denunciou o ministro cubano, fizeram uso do “assédio mais brutal” para obrigar mudanças de última hora no voto de sete países, dentre eles Camarões (que em troca recebeu a garantia de não ser condenado pela Comissão), a República Democrática do Congo (que teria o apoio para a segurança fronteiriça retirado, caso não seguisse as ordens imperiais) e Madagascar, bem como países que tiveram de se abster ao invés de votar a favor de Cuba, como Quênia, Senegal e Níger.

Canadá, Costa Rica, Uruguai e Guatemala também votaram contra Cuba atendendo à pressão dos Estados Unidos, em uma resolução patrocinada pela República Tcheca, um dos seus mais recentes fantoches após a famigerada “Revolução de Veludo”. O México, por sua vez, manteve a neutralidade, apesar do lobby do ministro de Relações Exteriores mexicano, Jorge Castañeda – um suposto ex-esquerdista, neoliberal e conspirador contra o próprio governo cubano .

O lobby norte-americano perdeu uma certa força conforme o imperialismo entrou em crise a partir de 2008 e países como Rússia e China, membros permanentes do Conselho de Segurança, passaram a se opor à ditadura dos EUA na ONU. Com isso, países com governos que aspiram uma maior soberania e liberdade em relação às amarras impostas pelo imperialismo têm se sentido mais livres no terreno diplomático.

No entanto, as pressões nunca cessaram. Em outubro passado, a Reuters revelou dois documentos internos do Departamento de Estado instruindo diplomatas norte-americanos em dezenas de países a pressionarem os governos estrangeiros a votar contra a resolução apresentada à Assembleia Geral da ONU que, aprovada anualmente desde 1992, pede o fim do bloqueio dos EUA a Cuba. O principal argumento do Departamento de Estado para pressionar outros países é o suposto apoio material de Cuba à Rússia na guerra contra a OTAN na Ucrânia – uma mentira que não tem nenhuma base na realidade, facilmente rebatida.

Mas essa campanha “extremamente agressiva e intimidatória” sobre países europeus e latino-americanos, como denunciou o chanceler Bruno Rodríguez, surtiu efeito. Os votos contrários à resolução nunca haviam passado de quatro (EUA e Israel sempre estiveram entre os votos contrários). Desta vez, sete países votaram contra – Argentina, Hungria, Macedônia e Ucrânia pela primeira vez e o Paraguai pela segunda vez, após o voto contrário de 1993. Além disso, houve um número elevado de abstenções (12), sendo que a maioria desses países (como Polônia, República Tcheca, Romênia, Estônia, Letônia e Lituânia) tradicionalmente votava a favor do fim do bloqueio.

Confirmando a veracidade das revelações da Reuters, os países que se abstiveram justificaram o seu voto acusando Cuba de apoiar a Rússia na guerra da Ucrânia. Isso ficou claro quando o representante romeno declarou que “o envolvimento estrangeiro em uma guerra de agressão ilegal é uma violação flagrante da Carta da ONU”. Todos esses regimes corruptos do Leste Europeu, tornados colônias dos EUA e da União Europeia na década de 1990, dependem de sua proteção para existirem, por isso são facilmente chantageados.

As pressões imperialistas para que os países pequenos e clientes aprovem resoluções que possibilitariam interferências em Cuba, bem como para que neutralizem as tendências de apoio à ilha diante do bloqueio dos Estados Unidos, demonstram a impossibilidade de igualdade nas relações entre países dentro de um mesmo organismo multilateral enquanto existir uma superpotência econômica e militar capaz de subjugar os países menores. Essa superpotência e seus aliados (Reino Unido, França, Alemanha, Itália etc.), com todas as riquezas de que dispõem – provenientes do saque do resto do mundo –, compram as autoridades de outras nações e, se isso não for suficiente, ameaçam acabar com suas carreiras e comprometer sua política interna, tudo para que contribuam com a manutenção do domínio imperialista sobre o mundo através da ONU.

Sendo assim, não posso deixar de concordar com o que me disse uma vez o secretário-geral do Partido Comunista de Lugansk, vítima da guerra de agressão da OTAN via Ucrânia: a ONU é um lixo americano.

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