O futebol brasileiro decaiu por causa do neopentecostalismo?


Brasil: decadência do futebol e ascensão evangélica na seleção refletem desordem urbana e precariedade, não causalidade religiosa. Catolicismo persistente.

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Esta Copa do Mundo foi a primeira na qual havia tradução automática no Twitter, e por isso o mundo descobriu que os brasileiros adoram fazer piada com todo tipo de assunto. O mundo viu, ainda, a sociologia de boteco brasileira, e tornou-se viral a seguinte hipótese: a pouca presença de católicos na seleção brasileira explica a decadência da seleção. Logo depois os colombianos fizeram os mesmos cálculos e, ainda que não tenham atrás de si um passado futebolístico glorioso, decidiram confirmar a relação causal entre declínio futebolístico e declínio do catolicismo. Acabou saindo até na mídia anglófona uma matéria sobre os disappointed Brazilians que tuitavam: “se rezamos como gringos, jogamos como gringos”.

Creio eu que a origem desse viral seja a matéria da revista brasileira Veja intitulada “ A exceção entre maioria de evangélicos no time de Carlo Ancelotti para Copa ”, que aponta Marquinhos como o único católico praticante da seleção. Por aí, já vemos que a questão é mais complexa do que parece, pois uma vez que se dividam os católicos entre praticantes e não-praticantes, torna-se muito questionável o declínio do catolicismo no Brasil. Embora tenha sido oficialmente católico desde a sua fundação até a proclamação da República (1889), o Brasil tem um grande histórico de informalidade e de lacunas. Vale destacar o regime do padroado, vigente até a proclamação da República em 1889, que colocava a igreja brasileira numa situação política parecida com a da igreja chinesa. Funcionou bem enquanto a coroa portuguesa era muito católica, mas começou a desandar com a ascensão do liberalismo via iluminismo e maçonaria. Nesse espírito, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas do Brasil no século XVIII e agravando um problema que a igreja sempre enfrentou: uma população grande espalhada por uma área gigantesca para a qual nenhuma quantidade de padres parecia suficiente. E os jesuítas sempre foram mestres em desbravar rincões habitados por pagãos.

Assim, não é de admirar que a figura do “católico não praticante” tenha sido comum no Brasil por todo o século XX, independentemente do crescimento do protestantismo. Na verdade, essas lacunas deixaram espaço para que as missões protestantes fizessem proselitismo e convertessem brasileiros de índole religiosa que não eram tocados pela Igreja católica.

Não obstante esse terreno fértil, os brasileiros costumam dar variadas respostas para o crescimento do protestantismo: vão desde dedos apontados para a CIA até à autocrítica católica. Pessoalmente, não estou inteirada de pesquisas históricas que expliquem bem o envolvimento da CIA. Ainda assim, pode-se apontar que as igrejas neopentecostais se valeram do mesmo processo de relaxamento das leis brasileiras que a pornografia, ocorrido durante os anos 70 e 80. Se o Brasil continuasse a fazer cumprir suas leis contra charlatanismo, curandeirismo e pornografia, não haveria espaço nem para Edir Macedo , nem para Hugh Hefner. Com a liberalização do Brasil, tudo virou liberdade religiosa, e ninguém prende um pastor que vende bugigangas milagrosas.

A autocrítica católica tem a versão de direita e a versão de esquerda. Católicos brasileiros de direita dizem que a culpa é da Teologia da Libertação, que impôs pautas materialistas aos pobres que procuravam assistência espiritual. Se o sujeito ia à missa e ouvia o padre falar de Lech Walesa, então mais valia procurar um pastor para ouvir sobre Cristo. Já os católicos brasileiros de esquerda culpam o “direitismo” de João Paulo II: ao combater a Teologia da Libertação, o Papa comprometeu as Comunidades Eclesiais de Base, mantidas nas periferias por seus adeptos. É possível que os católicos de direita e de esquerda estejam certos ao mesmo tempo, já que os dois motivos não são mutuamente excludentes. O combate à Teologia da Libertação pode ter piorado aquilo que a politicagem esquerdista já tinha estragado.

A razão que me parece mais decisiva, porém, é de natureza urbanística: desde a década de 1970, a migração desordenada levou os pobres a se aglomerarem em favelas que, até hoje, não param de crescer. A Igreja, sendo uma instituição que age em conformidade com a burocracia, não é capaz de construir templos a toque de caixa. Por outro lado, para criar uma igreja neopentecostal, não é necessário formar um teólogo competente, nem construir um templo: basta um sujeito com boa oratória comprar cadeiras plásticas e alugar uma sala.

Isso ajuda a entender por que a seleção brasileira tem uma maioria protestante num país de maioria católica: o perfil demográfico das religiões no Brasil. O estereótipo do jogador profissional brasileiro é o menino pobre das favelas que vê nesse esporte a chance de conquistar dinheiro e mulheres. Segundo o questionável censo de 2022 (segundo o qual não há favelas na cidade em que vivo), 8% dos brasileiros vivem em favelas. Locais especialmente favelizados são o estado do Rio de Janeiro (que lida com o inchaço urbano desordenado desde quando era a capital do Império, no século XIX) e os estados da Amazônia, onde as ONGs verdes vivem coibindo tanto a presença infraestrutural do Estado quanto as atividades econômicas formais. Ambos os locais são os menos católicos do Brasil , segundo o censo. O Rio de Janeiro, em particular, é o segundo estado menos católico, perdendo apenas para o conturbadíssimo estado de Roraima (que se aflige tanto com a imigração venezuelana e quanto com a perseguição verde à atividade econômica regular). As favelas se destacam, também, por terem mais templos religiosos do que a média brasileira.

Provando que não há relação direta entre baixa renda e protestantismo, os estados mais católicos são o Piauí e o Ceará, dois estados pobres e agrários de onde emigra muita gente. A correlação só ganha alguma solidez se acrescentarmos caos social: o pobre desarraigado, atomizado nas grandes cidades, vira evangélico, enquanto o pobre fincado em sua terra permanece católico.

O católico brasileiro pode ser tanto aquele que tem uma posição financeira confortável num grande centro urbano, quanto aquele pobre que permaneceu nos rincões mais profundos do Brasil. Já o típico protestante brasileiro é o favelado desarraigado. Seu estereótipo é o do simplório desesperado por dinheiro, atraído pelos charlatães da “Teologia da Prosperidade”, que prometem dinheiro mediante magia branca feita em nome de Jesus. Mas existem também os luteranos nas áreas de imigração alemã, bem como protestantes nascidos na classe média, alguns dos quais eram parte de famílias convertidas por missionários (como Anísio Teixeira), e outros convertidos individualmente. Aqui, também, há um estereótipo válido para a classe média e a classe baixa: o fulano desregrado, que bebia demais ou era muito mulherengo, ou até bandido e mesmo gay, de repente choca a família católica não-praticante dizendo que “virou crente”. Na minha família carioca, os mais velhos dizem que crente é “ex-tudo”, então é bom tomar cuidado com eles.

Agora vamos à questão que mobilizou a internet: é razoável dizer que o futebol brasileiro decaiu por causa do protestantismo? Não, pois isso implicaria revisar a História para dizer que o evangélico Kaká não pertenceu ao bom futebol brasileiro. As análises que partem do princípio de que os evangélicos brasileiros têm um espírito calvinista de sisudez e trabalho duro tampouco correspondem à realidade. Quem não quiser olhar o próprio histórico de farra dos jogadores brasileiros pode abrir o noticiário político e encontrar Daniel Vorcaro, o banqueiro evangélico que promovia orgias com prostitutas eslavas e convidava toda a classe política: parece o bunga-bunga da nada protestante política italiana, mas é brasileira e protagonizada por um evangélico.

Se não é verdade que o neopentecostalismo causou o declínio do futebol brasileiro, é fato que o neopentecostalismo acompanhou o declínio do futebol brasileiro. Fora da bolha do Twitter, não é arriscado dizer que o desempenho medíocre da seleção brasileira fez com que o Brasil tivesse mais uma vez a percepção de decadência generalizada. Faz perfeito sentido que ambos os fenômenos estejam juntos, já que a ascensão do protestantismo no Brasil reflete, sobretudo, a precariedade social, e é praticamente um fenômeno da Nova República . Isso torna muito curioso o fato de que o Brasil está passando, tal como a França e os EUA, por um revigorar católico constatado por um recorde de batizados de adultos .

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