A exigência da paz não está dissociada da luta mais vasta por uma vida digna. Junte-se a nós no Telegram , Twitter e VK . Escreva para nós: info@strategic-culture.su À medida que a União Europeia mergulha de forma vertical naquela que poderá ser a maior crise da sua história, muitos poderiam ser levados a acreditar que, face a tanta pressão, os dirigentes europeus pudessem começar a virar-se para uma conduta mais racional e pragmática, de reaproveitamento das vantagens geográficas e logísticas à sua disposição, garantindo a segurança energética do seu território através da aquisição de energia russa.
Nada mais ilusório. Desengane-se quem pensar que tal decisão será tomada por estes dirigentes europeus ou outros que, nos presentes condicionalismos, lhes sigam. Tal atitude não está presente certamente no 20º pacote de sanções, que bane 20 bancos russos das relações económicas com a EU ou proíbe a venda de barcos petroleiros ao seu anterior parceiro energético estratégico.
Existe algo, contudo, que sai do pacote de sanções, que consiste no transporte de petróleo russo, uma medida que constituirá uma exigência de países que continuam a ter de o comprar e são obrigados a utilizar barcos por si contratados para o transportar. Julgo que esta terá sido mesmo uma das condições para que alguns países tenham passado, quer o pacote de sanções, quer os 90 mil milhões de euros que vão para a Ucrânia, para os bolsos dos seus oligarcas, do seu chefe de cartel e para todos os que, da EU aos EUA sugam a maior parte desse dinheiro.
Uma reaproximação, mesmo que táctica ou pragmática, à Federação Russa não é conciliável com a intensificação dos exercícios militares no âmbito do “chapéu nuclear”, envolvendo França, Polónia e, agora, a Finlândia, país que mostrou abertura para ter tais armas no seu território. A Polónia, que questiona actualmente o compromisso dos EUA com a NATO, tem exercícios previstos com a França, para que os Rafales franceses capazes de transportar armas nucleares se passeiem na região da Bielorrússia e do Kalinigrado.
Eu pergunto-me por que razão um qualquer povo quereria estar no alvo de ataques nucleares da maior potência do planeta neste domínio. A resposta só a encontro como sendo resultado de muita desinformação e de ainda maior obscurantismo discursivo durante as eleições. Não falar de paz ou de guerra durante os processos eleitorais, sobre as reais intenções neste domínio, passou a ser o modus operandi de quase todos os governos da UE. Não falando do assunto, mais tarde, depois de eleitos, podem simplesmente dizer “votaram em mim”. E assim se frustram milhões de votantes, parecendo que não o fizeram.
Não nos deixemos, portanto, enganar! Qualquer alteração na postura da direcção burocrática da UE em relação à Federação Russa, que resulte numa relação mais saudável, capaz de conduzir a que os dois blocos usufruam das vantagens que mutuamente podem garantir, resultará apenas do que os povos europeus conseguirem fazer na luta pela paz e pelo direito ao desenvolvimento. Qualquer outro encontro que possa existir, aqui ou ali, sucederá por meras razões de ordem conjuntural ou táctica, que logo serão abandonadas a partir do momento em que os mercados internacionais de energia se normalizem ou a UE possa contar com outras fontes de fornecimento, mais consentâneas com o seu papel no quadro da hegemonia mundial dos EUA.
Daí que me questione muito sobre as recentes declarações de Dimitry Peskov, quanto ao Nord Stream, o facto de um dos seus ramais se encontrar apto a funcionar e a Rússia se tratar de um “ fornecedor fiável ” estando disposta a “abrir a torneira”. Com efeito, esta atitude conciliadora esbarra contra uma parede de russofobia que só teria a ganhar com a energia russa. Por que razão insistirá o Kremlin nesta abordagem, sabendo da sua rejeição automática?
Apostados em esgotar a Ucrânia até à última gota de sangue, os países da NATO comportam-se como aristocratas que, na presunção da sua ilimitada riqueza, se dão ao luxo de contratar um exército de mercenários para atacarem os seus inimigos. Neste caso, contratam a burguesia serventuária ucraniana para que escravize o seu povo numa guerra fratricida, esperando assim repartir o espólio russo com aqueles que servem.
É interessante como, a este respeito, a suposta ingenuidade de José Milhazes, o comentador mais russófobo do espaço lusófono, destoa com a realidade que ele diz tão bem analisar : “espero que este dinheiro não sirva para prolongar esta terrível guerra”. Não soubesse ele que a escravatura do povo ucraniano, forçado a combater uma guerra fratricida é movida a combustível emitido pelo próprio BCE, e que é a presença constante desse combustível que representa a causa e consequência da própria guerra.
Ora, na minha modesta opinião e considerando que a normalização do fornecimento de gás russo para a EU comportaria desvantagens graves para a própria Federação Russa. Desvantagens como o facto de continuar-se a alimentar uma sensação e normalidade social entre os estados membros da EU, permitindo a continuação da deriva russofóbica, sem que os povos sentissem a necessidade de apertar os seus dirigentes para que encetassem relações diplomáticas sérias, ou ainda, alimentando um complexo militar industrial apostado em derrotar a própria Federação Russa, que hoje produz drones e armas que a atacam em profundidade, incluindo as suas infra-estruturas energéticas. Custa-me muito a crer que esta constante abertura do Kremlin à venda da energia russa para a UE não faça parte de uma estratégia mais vasta.
Não me parece realista que Moscovo acredite realmente, nesta fase, que a normalização dos fornecimentos de gás à UE conduzisse a uma qualquer regularidade diplomática. Os discursos dos principais dirigentes europeus continuam a primar pela continuidade da agressão através da Ucrânia e, até que se engrosse a fileira de países como Hungria ou Eslováquia, regularizar a venda de gás ou petróleo à UE significaria fornecer energia que será utilizada nos próprios ataques ao povo russo. Não é crível que a actual crise no Golfo Pérsico provoque uma espécie de inversão no sentido do pragmatismo e racionalismo. Quanto muito, como disse, poderia provocar uma inversão oportunista, extremamente perigosa para a própria federação russa, que estaria a fornecer energia vital ao seu maior e mais figadal inimigo. O que constituiria uma contradição insanável. Como não considero os dirigentes russos como sendo irresponsáveis, incompetentes ou ingénuos…
Para percebermos em que plano mental se situam os dirigentes europeus, a respeito da sua incompatibilização com a Federação Russa e a forma como pretendem ultrapassar a mesma, ficam alguns exemplos drásticos do que referi anteriormente.
A UE acaba de aprovar mais um multibilionário empréstimo à Ucrânia após a retoma do fornecimento de petróleo através do oleoduto Druzhba. Mas não nos enganemos, para a UE, esta cedência por parte de Bruxelas e Kiev significa um obstáculo futuro a eliminar, pois, como acusam muitos dos mais aguerridos defensores da guerra na Ucrânia, a UE está a financiar ambos os lados do conflito. Financia a Ucrânia para pelejar contra a Rússia e financia (através das compras energéticas) Moscovo para este pelejar contra a NATO. Daí que, logo a seguir à aprovação do empréstimo, von der Leyen tenha, uma vez mais, introduzido a questão da votação por maioria na UE, propondo o abandono do veto nacional. Este posicionamento, como se vê, confirma o carácter meramente táctico do “recuo” referido. Um mero obstáculo que a burocracia de Bruxelas pretende resolver a curto prazo, para que possa continuar na senda da guerra.
Como não quero acreditar que em Moscovo não se tenha conhecimento disto, chego à conclusão de que o jogo do Kremlin se trata de um verdadeiro passo de xadrez geopolítico, que visa três coisas: 1. Não abandonar os aliados pontuais ou seguros que vai tendo dentro da EU, considerando também candidatos como a Sérvia; 2. Tentar demonstrar que estes aliados têm mais vantagens energéticas do que os mais desavindos russófobos governos da UE; 3. Através da contradição anterior, fomentar a divisão, explícita ou inconfessável, dentro da suposta muralha do unanimismo da UE.
E a verdade é que, de alguma forma, esta estratégia, a comprovar-se, parece estar a dar certo. Vejamos alguns indícios disso mesmo:
- A ansiedade de Bruxelas em remover o direito de veto nacional, antes esgrimido como um travão ao dispor de países que se queriam atrair, numa fase de construção em que era importante transmitir a ideia de que todas as nações eram iguais, constitui um exemplo de nervosismo, urgência e desespero, que, a materializar-se, poderá conduzir, a prazo, à própria desagregação, pois, sem veto, as nações deixadas sem armas contra decisões que as afectem profundamente, poderão ser levadas a sair;
- - A leste, países como Eslováquia, Sérvia e Hungria, adoptam o pragmatismo nas relações com Moscovo, mas mesmo a República Checa tem vindo a mostrar-se mais cautelosa, denotando-se uma tendência para, a leste, poder-se desenhar um eixo de contestação à histérica posição europeia;
- - A sul, Espanha aponta à China na procura de alternativas de desenvolvimento, apesar de UE e EUA, mas a Itália de Meloni, aqui e ali, volta ao assunto da necessidade de se trabalhar para a paz, como já o fez também Macron
- - Também a Sul, Portugal, através do seu 1.º Ministro veio defender a ida de Putin ao G20, num quadro em que também se defende o investimento chinês no país, embora muito mitigado pela ingerência do “amigo” americano;
- - A Alemanha, Merz, sempre de forma cuidadosa, tanto se apresenta como querendo ser o ponta de lança do combate, como antevê uma relação futura possível;
- - A norte, Finlândia, Polónia, Lituânia, Estónia e Letónia, comandados pela mais ignorante das representantes europeias alguma vez conhecidas, representam uma espécie de eixo fanático e linha dura da russofobia.
- Está então à vista uma, ainda, ténue divisão entre sul, norte, centro e leste, sendo a russofobia governamental mais rígida quanto mais nos aproximamos do norte atlântico (onde encaixamos o Reino Unido), perdendo esta linha fulgor quando andamos para leste e sul. No centro, França, Alemanha, Áustria, reina a maior indecisão. Sendo também aí que jogará mais duramente a relação de forças.
Assim, se algo é conseguido pelo Kremlin, através desta constante moderação discursiva, é a divisão crescente na muralha da decisão da UE. A força com que esta muralha se poderá decompor resulta, sobretudo, da forma como a realidade económica evoluirá.
E para já, as coisas não estão a evoluir muito favoravelmente para a UE. Numa peça da Reuters assume-se que, face à contínua dependência da Europa em relação ao Gás e Petróleo, a sua posição quanto aos choques energéticos externos continua a verificar-se, senão a intensificar-se, uma vez que, ao tornar a cadeia de abastecimento mais complexa e dependente da navegação e menos do pipeline , tudo se torna mais inseguro.
Mas esta realidade encerra também uma outra contradição, nomeadamente a de que, de acordo com a agenda de transição energética da UE, à força de aumentos na produção no domínio das energias renováveis, nesta altura, a dependência externa já deveria estar mais mitigada. Mas não está e, no caso dos EUA, essa dependência representa 60% do total do gás adquirido em relação apenas a um fornecedor.
O facto de a Noruega, único fornecedor local da UE, já se encontrar a produzir na sua capacidade máxima, um nível que pretende manter até 2035. Ora, esta realidade aponta para uma necessidade bem real e contraditória com a da agenda para a transição energética: a UE prevê continuar a depender enormemente do gás, no seu mix energético.
Prova disso mesmo foi o que disse a ministra da Economia e Energia da Alemanha, Katherina Reiche, ao afirmar que “a transição energética da UE nas últimas duas décadas gerou custos sistémicos mais elevados”, deixando denotar um certo desânimo para com a agenda da transição imposta por Bruxelas, com o aval de Biden, Merkel, Baerbock e Sholz. Com efeito, Reiche chega mesmo a falar de “um erro que vamos corrigir”, acrescentando que as medidas podem incluir o corte de subsídios para energia eólica offshore e outras tecnologias de baixo carbono.
E para confirmar, de facto, que o caminho é mesmo esse, a Alemanha prevê construir cerca de 36 gigawatts de capacidade de geração de energia eléctrica a partir do gás nos próximos anos, priorizando a segurança energética em detrimento das metas climáticas. Ou seja, o sacrifício das ambições climáticas da UE deixa antever duas contradições insanáveis: a de que para se reindustrializar e atingir o desígnio da agenda “Made In Europe” (leia-se, principalmente, “Made in Alemanha e Norte da Europa”), a UE terá de abandonar grande parte da sua agenda de transição energética, eliminando subsídios e flexibilizando metas; a outra, que a UE continuará a consumir combustíveis fósseis mais dispendiosos, apenas porque não pretende entender-se com a Federação Russa, colocando assim em causa a competitividade da sua economia, a eficácia do seu projecto de reindustrialização e, em última análise, o seu rearmamento.
Esta é uma contradição pesada, para a qual Moscovo contribui com a sua constante moderação negocial em direcção à Europa. O que valerá mais nas cabeças da Comissão Europeia, da burocracia de Bruxelas e da oligarquia da NATO? Será o desejo de reindustrialização e de reforço da competitividade da economia europeia? Ou será o desejo de montar um exército para combater a Federação Russa – ou para lhe provocar tanto medo que a leve a submeter-se por si própria – desígnio de que a reindustrialização é peça instrumental?
É interessante que o paradoxo é tão profundo que, segundo Von der Leyen, recuar na meta de 30 de Setembro de 2027 como data limite para o desacoplamento energético em relação à Rússia seria uma derrota numa visão de longo prazo da EU, deixando a Presidente da Comissão Europeia denotar que para si, para os seus, a lógica confrontacionista com a Federação Russa pesa mais do que a descarbonização e a própria independência energética da UE.
É que para um continente sem matérias-primas e sem energia fóssil suficiente no seu subsolo, a agenda para a transição energética constitui a pedra de toque da sua independência, autonomia e soberania energética. Esta característica deixa antever em que plano mental se inserem as gentes da burocracia de Bruxelas: recuar em relação à Rússia não pode ser, porque significaria a derrota de uma estratégia encetada desde 2014; mas recuar numa estratégia energética que começou a dar os seus passos ainda no final do século passado e que foi ganhando corpo nas agendas europeias seguintes, tal já não constitui uma derrota numa estratégia de longo prazo. Para mais, quando tal estratégia visava responder a desígnios muito importantes para os europeus.
A resolução desta complicada equação filosófica só pode ser uma: para a UE e quem a dirige, a guerra e a destruição da Federação Russa, preconizadas em múltipla documentação de acesso público, vale mais do que o bem-estar, a independência, liberdade e qualidade de vida de 500 milhões de pessoas.
O que é interessante, contudo, é que, conforme referi anteriormente, para que a EU construa o tão ansiado exército anti-russo e para que seja capaz de suportar o custo da sua construção, pode ser que tal só seja conseguido à custa da compra de gás russo. Caso contrário, sujeitando-se aos mercados internacionais e considerando o colapso anunciado do fornecimento energético futuro com origem no Golfo Pérsico, bem como o aproveitamento que os EUA não deixarão de fazer da ausência de fornecimento da Ásia ocidental e, por outro lado, da automutilação do fornecimento russo pela própria UE, para que consiga construir tal exército Bruxelas precisará de despender tais recursos que as condições de vida dos povos não deixarão de sofrer enormemente com isso.
Foi o próprio Friedrich Merz quem veio dizer que a Europa tinha de abandonar algumas âncoras que travam o seu desenvolvimento económico, tais como o estado de bem-estar social. Ora, esta visão demonstra, uma vez mais, onde param as prioridades da Alemanha e, por arrastamento da UE: é mais importante não comprar gás e petróleo à Federação Russa do que manter os padrões de vida dos trabalhadores europeus, já de si bastante degradados.
Esta atitude deixa à vista que só os povos europeus podem colocar cobro a uma monstruosidade destas, nomeadamente através da sua luta. Face à total inversão das prioridades, em que a burocracia europeia, a elite oligárquica e euro-atlântica, servil a Wallstreet, que a sustenta, inverte totalmente as prioridades do que deveria constituir uma governação exercida sob os princípios que os próprios enunciam, só restando uma alternativa, a organização colectiva dos povos, a luta popular, com foco ao nível nacional.
E porquê esta ênfase no nível nacional da coisa? Hoje, a União Europeia representa um enorme véu de ilusão disposto sobre o conjunto dos estados membros, que oculta a sua verdadeira natureza oligárquica. Através de um sistema burocrático transnacional, desacoplado da vida real, mas com as capacidades de difusão que só um organismo desta amplitude pode conseguir, alicerçado num sistema de propaganda extremamente eficaz e em mecanismos de amplificação de resultados muito eficazes, a EU consegue criar uma ilusão em que a avaliação que os povos europeus fazem dela, é tanto melhor, como pior parece ser a sua vida.
Quanto mais se centraliza o poder em Bruxelas, deslocalizando as soberanias nacionais e os direitos democráticos para o bolso da burocracia europeia, mais os povos sentem o distanciamento entre a EU e a carestia da sua vida. O resultado é simples: responsabilizam os governos nacionais, que optam por prescindir, em favor de Bruxelas, dos instrumentos democráticos e governativos à sua disposição, e desculpam a EU, que concentra esses poderes e intervém de forma cada vez mais decisiva e intromissiva nos interesses nacionais. A UE constitui um véu de dissimulação do grande capital cartelizado ao nível euro-atlântico, usado para iludir e impedir os povos europeus de conhecerem os verdadeiros e últimos responsáveis pela sua situação de vida e pelo facto de terem de aceitar que, num futuro próximo, tudo será ainda pior do que já é.
Este sistema, que se alimenta das soberanias nacionais, concentrando o poder de decisão em Bruxelas e colocando-o ao serviço da verdadeira União Europeia – constituída pelo cartel europeu das oligarquias capitalistas nacionais que assim ganham dimensão transnacional -, possui tal poder de dissimulação que, fazendo uso dos fundos comunitários, em estreita conexão com rígidas normas de disciplina orçamental de cariz neoliberal e neofascista (promotora e protectora dos monopólios e dos cartéis que os detêm), consegue atrelar os parcos investimentos públicos nacionais ás suas agendas, subvertendo assim os objectivos originais que se esperariam dos orçamentos nacionais.
Estes orçamentos nacionais, reduzidos a meros sucedâneos dos orçamentos comunitários, cumprindo um mero papel de muleta fiscal e orçamental nacional, conectando à realidade local os objectivos da agenda comunitária, passam a funcionar como instrumentos de aplicação e consecução das metas transnacionais da UE e, por extensão, das agendas do cartel oligárquico europeu que sustenta todo este sistema. Quando um orçamento como o português reserva uma pequena parcela para investimento público, fá-lo ao serviço de Bruxelas – Portugal é o país mais dependente de fundos comunitários para investimento público – torna essa verba numa mera comparticipação nacional da agenda de Bruxelas.
A propaganda que passa é que, se não fossem tais fundos, o país se afundaria, mas o que nunca se diz é que apesar de tais fundos, o país lá se vai afundando. Hoje, dois jovens licenciados portugueses, que se querem juntar, têm de abandonar o país, porque não podem adquirir uma casa. Ao colocar o povo português a competir por casas com suecos e alemães, no seu próprio território, a EU e o governo português forçam os jovens a abandonar as suas famílias, as suas raízes, a sua vida. Mas não há problema, porque enquanto estudaram, aproveitaram os programas Erasmus pagos com fundos, estudaram em escolas e universidades pagas com fundos, que os foram habituando à ideia do desenraizamento social, trocando a imigração forçada por motivos económicos, num fardo emocionalmente sustentável. O dinheiro justifica tudo!
Apesar de dezenas de anos de “integração europeia”, o salário-mínimo mínimo na UE variam entre os de um Luxemburgo e os de uma Bulgária, em que o primeiro é 4 vezes superior ao segundo. Esta desigualdade, mantida à custa de recomendações de política económica e, mais recentemente, da Directiva para Salários Mínimos “Adequados”, bem como de governos intencionalmente submissos, conduz a uma realidade em que, na melhor das hipóteses, se mantêm as distâncias. Trata-se de um processo de constante aperfeiçoamento do sistema de subversão de prioridades, que mascara a verdadeira natureza oligárquica, cartelizada e ditatorial desta EU.
Num mercado aberto, em que circulam capitais e mercadorias, a tendência é para que Portugueses comprem as coisas ao preço dos Belgas, mas com salários três vezes mais baixos. Através de uma propaganda muito bem estudada e de uma cenoura chamada fundos comunitários e “convergência europeia”, lá se vão mantendo os povos apartados, entre os que vivem no norte e centro, guardando para si o que de melhor existe, e os do sul e leste, que ficam com as sobras. A realidade diz-nos que as distâncias entre uns e outros vão sendo cada vez maiores e que para um Português médio aproximar-se do nível e vida de um alemão médio, terá de ir viver para a Alemanha. Já o alemão pode vir para Portugal e desterrar o português do seu país para fora.
Esta realidade, dura, incontornável, dolorosa e difícil de aceitar, principalmente para quem andou tantos anos a vender a “Europa”, usando a União Europeia como ansiolítico para uma vida cada vez mais difícil e cheia de perigos (Covid, crises energéticas, guerras), chegará a um ponto em que o discurso europeu enunciado será cada vez mais contraditório com a vida vivida. Nesse dia, a natureza encarregar-se-á de encontrar alternativas que respondam aos problemas sentidos.
Como forma de aprofundar esta concretização, o Kremlin lá vai esgrimindo a sua “torneira de gás” de fácil abertura, que paira como uma sombra, um fantasma, sobre as cabeças dos dirigentes europeus. É como se não conseguissem livrar-se desse fantasma que os atormenta. Quanto mais falam de Ucrânia e mais dificuldades sentem os europeus, quanto mais falam de guerra e mais sobe o preço da energia, paira sobre si um espectro chamado “energia russa barata e abundante” que mantém em alerta fatias cada vez mais importantes dos povos europeus.
Quando Merz diz que tem de se abandonar o estado social, trocando a qualidade de vida do alemão, pela energia dispendiosa dos EUA, fica, ao mesmo tempo, assombrado pela possibilidade de, forçado pelo povo alemão a abrir a torneira do gás russo, ter de abandonar, não apenas o fornecedor privilegiado que o mantém como Chanceler alemão – os EUA da Blackrock que o emprega – como seria forçado a abandonar os projectos laborais e sociais dracónicos, fascizantes, do cartel oligárquico euroatlântico que a oligarquia alemã também encabeça.
Por outro lado, gente como Merz ou Von Der Leyen e, especialmente, quem eles servem, sabe que existe um grande perigo, para os seus propósitos, na abertura da torneira russa. É que, se da primeira vez os povos europeus, os pequenos empresários e as facções capitalistas não cartelizadas, caíram no conto do vigário e foram forçados a abrir falência e ver as suas condições de vida caírem, por acção do corte energético com a Rússia, ao abrir-se outra vez a torneira e ao florescer de novo a economia europeia – algo só possível com e ao lado da Federação Russa -, seria difícil, com a experiência histórica acumulada, voltar tudo ao desastre que vivemos.
Sabendo que o retorno à energia russa representaria tal normalização e relações, a burocracia europeia e o cartel euro-anglo-americano persistem na sua agenda brutal, de forma a alimentar assim os propósitos do complexo militar industrial dos EUA e de toda a NATO.
Daí que a luta nacional, por melhores condições de vida e trabalho, por energia e habitação mais baratas, constitua a maior ferramenta ao serviço dos povos e da democracia, algo só possível no plano nacional. Tal luta, se bem-sucedida, não apenas obrigará os estados membros, individualmente considerados, a procurarem as soluções mais adequadas para a defesa dos povos que dizem representar, obrigará a subverter a pirâmide de poder da UE, que funciona ao contrário, ou seja, do topo para a base e, fazendo-o, obrigará ao abandono das prioridades actuais.
Neste sentido, a luta dos povos pelas suas condições de vida, pelos seus direitos, é também uma luta pela paz, pela amizade, pela normalização de relações e pela ultrapassagem das quezílias continentais.
A torneira do gás russo é assim como uma guilhotina dos interesses, a qual, bem jogada, poderá acartar o frustrar de todo um processo de fascização da sociedade europeia. Para os que não sabem, da razão pela qual falo em fascização, talvez lhes falte saber em que consiste realmente o fascismo: o fascismo constitui a arma mais dissimulada de arrastamento dos povos em direcção a políticas de promoção dos interesses da oligarquia, de protecção dos monopólios, subversão dos interesses dos trabalhadores em detrimento dos interesses do capital, dissimulando tais acções num véu, mais ou menos denunciado, de populismo, fanatismo, belicismo, militarismo, supremacismo, neoliberalismo, federalismo, idealismos para quem trabalha e materialismo realizado para quem comanda.
Em resumo, o acesso ao gás russo, barato e abundante, possibilita uma reindustrialização mais sustentável, capaz de defender minimamente os interesses dos povos europeus, mantendo as metas de descarbonização e melhor programando e gerando recursos para investir na independência energética dos estados europeus, abrindo a porta a uma economia mais competitiva sem recurso ao dumping social. Por sua vez, prescindir do gás russo e de uma posição mais vantajosa e equilibrada nas relações de forças entre EU, EUA e Federação Russa, jogando com a alternativa de fornecimento, implicará uma reindustrialização socialmente dolorosa, feita à custa de dumping social, apenas sustentada através de uma forte muralha de repressão, ilusão e manipulação de massas.
Por que razão a oligarquia atlantista optaria por tal solução? Porque essa opção é a que mais joga com a sua intenção de combate à China, de desmantelamento da Federação Russa e reconstrução da hegemonia mundial dos EUA e da oligarquia europeia dependente. Esta opção demonstra que a constante disponibilidade da Federação Russa para a abertura da torneira, é também uma sombra e uma espada que paira sobre as relações entre EU e EUA, a qual, esgrimida, colocará em contradição dos interesses energéticos dos EUA na europa, profundamente contraditórios com os interesses dos povos europeus, obrigados a energia dispendiosa, ambientalmente exigente e logisticamente insustentável (o GNL é logisticamente e ambientalmente mais exigente do que o fornecimento por gasoduto) e a uma reindustrialização adiada ou profundamente dolorosa.
A exigência da paz não está, portanto, dissociada da luta mais vasta por uma vida digna!