Quem foi Sabatai Zevi, o Messias judeu de 1666?
Em 1666, messias judeu Sabatai Zevi causou frenesi, converteu-se ao Islã e legou seitas ocultistas. Junte-se a nós no Telegram , Twitter e VK . Escreva para nós: info@strategic-culture.su Nos últimos anos, Israel tem tentado impor à opinião pública que todos os que não acham morticínio de crianças uma coisa bonita são antissemitas. Assim, não é de admirar que as pessoas percam o medo dessa acusação que outrora era tão preocupante, e passem a averiguar os temas mais funestos da historia do judaísmo. Nesse contexto, tem-se trazido à tona o sabataísmo , um movimento messiânico judaico que deu origem a seitas ligadas à maçonaria, prática de incesto e infiltração nas outras religiões abraâmicas. Como o assunto é apetitoso para os curiosos, resolvi ler a fonte mais autorizada possível: Gershom Scholem, historiador da Universidade Hebraica de Jerusalém e principal autoridade acadêmica em misticismo judaico. Baseio-me em sua biografia de três tomos Sabatai Zevi: O Messias Místico . (A grafia varia, e a edição brasileira pela Perspectiva optou por Sabatai Tzvi .) A obra se limita ao sabataísmo original e não cobre o frankismo (no século XVIII, um certo Jacob Frank é reputado reencarnação de Sabatai Zevi e dá novo fôlego ao movimento messiânico na Europa). As circunstâncias de Sabatai Em meados do século XVII, tanto os judeus quanto os puritanos estavam doidos, esperando a iminência do apocalipse. Os judeus achavam que o apocalipse ocorreria em 1648 por causa de uma passagem do Zohar ; os protestantes, em 1666 por causa do número da Besta. Em 1648, houve apenas um pogrom na Polônia, mas os ânimos apocalípticos não esfriaram entre os judeus. Haverá uma influência do puritanismo sobre o judaísmo? Essa foi uma das primeiras explicações do sabataísmo. Segundo Scholem, Heinrich Graetz levantou a hipótese sem provas de que Sabatai Zevi, lá em Esmirna na Turquia, ouvia a conversa do seu pai com mercadores ingleses puritanos, e por isso esperava o apocalipse em 1666. Ora, o fato de que os puritanos consideravam os judeus uma fonte incorrupta de conhecimento religioso torna até provável que os comerciantes ingleses fossem atrás de um comerciante judeu para discutir escatologia. Embora Scholem descarte essa hipótese, ao longo do livro ela vai soando cada vez mais plausível, já que o leitor vai aprendendo que às vezes Sabatai imitava Jesus mesmo sem ter vínculos formais com a cristandade, e que Esmirna tinha até comunidade holandesa, com pastor escrevendo sobre. Inclusive o único retrato autêntico de Sabatai foi feito por um cristão, e traz a legenda em francês e holandês. Quanto à pessoa de Sabatai, sabe-se que seu pai era um comerciante da Grécia, onde havia uma grande comunidade sefardita, que adorava cantar músicas românticas em espanhol e que, apesar de ser nascido e criado em Esmirna, não sabia falar turco. Embora tudo aponte para um judeu sefardita na Turquia, Scholem não crava que Sabatai seja um descendente dos judeus expulsos da Península Ibérica, pois o sobrenome Zevi não é sefardita. A família de Sabatai era de comerciantes abastados, mas ele resolveu tornar-se rabino e cabalista. Os asquenazitas impunham restrições ao acesso dos jovens à cabala (isto é, ao misticismo judaico), mas entre os sefarditas era comum estudá-la desde cedo. Na verdade, a cabala se tornou uma verdadeira mania entre os judeus sefarditas após a expulsão da Espanha, um evento que aparentemente os levou a uma obsessão vitimista só comparável ao Holocausto. Assim, cabalistas expulsos da Espanha foram para Safed, na Palestina, e estabeleceram um novo centro de cabala. Nesse centro desenvolveu-se a cabala luriânica , de Isaac Luria, que era asquenazita. Essa cabala é uma cabala do exílio , uma misticismo do exílio. Muito resumidamente, a cabala luriânica conta a história de Deus e do universo assim: Deus é como se fosse uma luz que nós não podemos olhar, então, para fazer-se visível, colocou-se em qelipot (plural de qelipá ), que significa vasos, cascas ou utensílios e também o mal. Esses vasos não podiam conter Deus e se partiram. Além disso, Deus, sendo como uma luz, tem diversas emanações ( sefirot , plural de sefirá ). A mais baixa das emanações é a Shekhinah, que é, de fato, pensada como uma mulher, mas eles proíbem terminantemente a sua representação em imagens. Assim, quando as cascas se partiram, essa emanação mais baixa ficou presa nas cascas – isto é, no mal – e era a missão de Adão pôr um fim ao exílio da Shekhiná, reunindo-a com uma emanação macho que é superior. Adão fracassou nessa missão e cabe ao Povo Judeu fazer a grande Restituição que porá um fim ao exílio da Shekhiná, que agora está cega de tanto chorar sobre as cinzas. É maluquice? Sim, com certeza. Mas como há gente maluca e poderosa no mundo! E é uma maluquice sujeita às mais complicadas barafundas, pois inclui reencarnação e, pior, fracionamento das almas. Adão tinha uma alma grande que se dividia em 613 pedaços, depois esses 613 pedaços se dividiram em 600 mil almas do povo judaico; mas, havendo mais do que 600 mil judeus no mundo, entende-se que cada judeu tem uma fração (uma “centelha”) dessa fração de 600 mil. Só os judeus têm uma centelha divina; nós, gentios, somos cascas, as qelipot , o “outro lado”, o mal. Uma exceção ocorre quando uma alma muito pura está para nascer e é aprisionada pelo demônio numa qelipá : aí o judeu tem que descer até o mal (os gentios) e salvá-la (i. e., convertê-la). Esse era um jeito de explicar o casamento de judeus com mulheres gentias no Velho Testamento, e a própria linhagem do Rei Davi. Mas serve para explicar o casamento de Jared Kushner com Ivanka Trump também. Para complicar ainda mais, o Messias não é mais uma figura única que o povo judeu vai esperar. A alma do Messias reencarna várias vezes e tem fragmentos espalhados por aí. Por exemplo, acreditava-se que Isaac Luria tivesse a alma do Messias, mas o Povo Judeu não estava à altura dos acontecimentos e por isso Luria morreu jovem. Com a cabala luriânica, portanto, o Messias passa a ser uma espécie de cereja do sundae , pois cabe ao Povo Judeu fazer todo o trabalho. É como o checklist do apocalipse que hoje vemos nas igrejas ditas evangélicas. As idiossincrasias de Sabatai Sabatai Zevi nasceu em Esmirna em 1626, num sábado 9 de av, data da destruição do Templo de Salomão e do Segundo Templo. Essa data era apontada pelos rabinos como a data de nascimento do Messias. E quando um bebê judeu nascia sábado, era comum receber o nome Sabatai. Desde jovem, Sabatai tinha problemas. Adolescente, era atormentado pelos “filhos da prostituição”, isto é, pelos demônios que os judeus acreditam ser gerados pelo homem quando o seu esperma não vai para dentro de uma mulher. O demônio feminino Lilith se apropria do sêmen e é a mãe dos espectros que perseguem o onanista (o pai) exigindo um corpo. A família de Sabatai arrumou-lhe duas esposas, as quais ele não quis tocar. Os casamentos portanto acabaram em divórcio. Além disso, Sabatai tinha suas fases de mania, depois chamadas pelos sabataístas de iluminação, e de depressão, chamadas de ocultação da face. Segundo Scholem, pessoas que exibiam o seu comportamento no século XX eram diagnosticadas como maníacas-depressivas (hoje, bipolares). Nas fases de iluminação, Sabatai tomava atitudes estranhas, tais como pronunciar o nome inefável de Deus. São poucos os relatos precisos das “ações estranhas” de Sabatai. Em geral, ele era objeto de piedade em Esmirna. Os judeus consideravam-no um bom homem, um homem pio, que acontecia de ser atormentado por demônios. Num dado momento, porém, entre 1651 e 1654, ele fez alguma coisa que ocasionou o seu banimento de Esmirna pela comunidade judaica. Foi para Salonica, a terra dos seus pais. Lá, escandalizou a comunidade judaica ao providenciar uma cerimônia de casamento na qual ele próprio era o noivo e a Torá, a noiva. Em 1658, parte para Constantinopla (atual Istambul), onde compra um grande peixe, veste-o com roupas de bebê e põe-no num berço. Para desespero dos rabinos, Sabatai insiste que isso é uma representação da redenção de Israel, que ocorreria sob o signo de peixes. Esse ano ele aprontou um monte, tendo proclamado que recebeu uma Nova Lei, a qual consiste na transgressão da antiga lei. Pela sua doutrina, a transgressão santifica. Isso significa tanto comer porco quanto praticar incesto, mas ninguém sabe o que exatamente se fazia, nem se a transgressão era restrita a Sabatai ou deveria ser perpetrada por todos os judeus. Scholem aponta que a ideia de que o Messias (ou qualquer pessoa) traga uma mudança na Lei é cristã e estranha à cabala, que admite uma mudança na Lei apenas conforme a passagem dos éons. Podemos, então, considerar que Sabatai era uma espécie de paródia de Jesus. Além disso, juntando informações seguras com especulações sobre mal-entendidos, Scholem defende que em sua estadia em Constantinopla Sabatai conheceu o cabalista David Habillo, que acreditava na existência de um “Satã da Santidade” (sic) cujas ações, embora satânicas, não eram maléficas. Por volta de 1660, volta para Esmirna e fica lá até 1662, quando parte para o Egito e recebe dos judeus egípcios a tarefa de coletar esmolas para os judeus pobres da Palestina. O Império Otomano cobrava muito caro dos judeus que quisessem se estabelecer lá, de modo que eles eram místicos muito pobres que dependiam das esmolas da diáspora. Assim, Sabatai fica fazendo um bate e volta entre o Egito e Jerusalém, e era bom na tarefa de coletar doações, mesmo estando completamente lunático em suas fases de mania. Em 1664, em Jerusalém, ele se casa com uma figura enigmática, uma judia polonesa chamada Sara, uma suposta órfã criada como cristã e notória prostituta. Ela dizia querer casar-se com o Messias e por isso casou-se com Sabatai. Scholem especula que ele talvez quisesse emular Oseias; podemos acrescentar que talvez ele quisesse uma Maria Madalena. Casado, Sabatai decide usar seus conhecimentos de cabala para fazer um poderoso exorcismo em si mesmo e acaba com o seu ciclo de mania e depressão. Tudo muda, porém, no final de 1665, quando ele conhece o jovem cabalista Natan de Gaza, que o convence de que suas iluminações eram divinas e ele é o Messias. Mas isto fica para a próxima.