BRICS completa 20 anos: de 4 a 10 membros, 41% do PIB global, banco próprio e sistema de pagamentos alternativo. Bloco supera G7 e acelera a multipolaridade. Junte-se a nós no Telegram , Twitter e VK . Escreva para nós: info@strategic-culture.su Os BRICS são hoje um tema corriqueiro das relações internacionais, especialmente quando se busca refletir ou debater sobre possíveis caminhos de superação do momento unipolar pós-Guerra Fria em prol de uma ordem ou sistema multipolar. Não se sabe, de fato, “como” seria realmente a multipolaridade na prática, mas todos têm a impressão ou crença de que os BRICS teriam um papel a desempenhar no impulsionamento das mudanças que podem levar a essa nova ordem.
Os primórdios dessa articulação, porém, foram bem modestos. Primeiro, por serem apenas 4 países (Brasil, Rússia, Índia e China – ou seja, era BRIC inicialmente). Segundo, porque a articulação não passava de uma movimentação de aproximação bastante aberta entre países ditos “emergentes” buscando se apoiar mutuamente para encontrar fontes alternativas de financiamento e investimento.
A própria nomenclatura, abraçada pelos fundadores, foi criada por Jim O’Neill do banco Goldman Sachs a partir de uma análise sobre os possíveis futuros motores do crescimento econômico mundial. Não deixa de ser peculiar o fato de, hoje, e talvez a contragosto, os BRICS estejam engajados num processo de reforma radical da própria ordem que o Goldman Sachs ajudou a instituir, com o suporte da hegemonia financeira do dólar e da ferramenta comercial do petrodólar.
A comparação entre o que eram os BRIC em 2006 e o que são os BRICS hoje, de fato, é bastante iluminadora.
Materialmente, poderíamos falar no salto na quantidade de membros, dos quatro já citados, para dez: Brasil, China, Egito, Etiópia, Índia, Indonésia, Irã, Rússia, África do Sul e EAU, metade destes tendo se unido ao bloco nos últimos anos, após o novo impulso ao projeto dado pela Rússia em seguida à tentativa de isolamento por parte do Ocidente.
Ademais, os BRICS criaram ainda umas espécie de “círculo externo” de parceiros dos BRICS, que não seriam membros oficiais, mas teriam acesso aos benefícios de determinadas iniciativas dos BRICS. Os países que foram incluídos nessa categoria são: Argélia, Belarus, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Nigéria, Tailândia, Turquia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã.
Algo que salta aos olhos é o fato de que o pertencimento ao BRICS+ e seu sistema de parcerias tem uma razoável sobreposição com a OPEP+: Rússia, Brasil, Irã, Nigéria, Argélia, Cazaquistão e Malásia estão em ambas articulações. Os EAU saíram recentemente da OPEP, e a Venezuela foi convidada aos BRICS, mas foi vetada pelo Brasil. A Arábia Saudita por sua vez, deixou a sua adesão aos BRICS em suspenso. Seria isso tudo uma indicação de um esforço dos BRICS por se “fundir” com a OPEP e, com isso, adquirir uma maior influência sobre o mercado internacional de petróleo? De fato, isso facilitaria a superação do petrodólar.
Quando a questão é refletir sobre o peso material dos BRICS (levando em consideração apenas membros plenos e não os parceiros) no mundo também é possível perceber um ganho de importância.
Nesses 20 anos, os BRICS cresceram de 42% para 46% da população mundial, de 25% para 41% no PIB (PPP), de 12% para 25% das exportações mundiais, de 15% para 45% das reservas mundiais de petróleo, de 25% para 53% das reservas de gás natural, de 10% a 20% das reservas de ouro (alojadas em bancos centrais), de 70% a 80% das terras raras, de 30% a 38% dos recursos hídricos e de 20% a 36% das terras aráveis.
Hoje, finalmente, os BRICS controlam 25% das reservas de cobre, 20% das reservas de lítio, 55% das reservas de níquel, 20% das reservas de cobalto, 45% das reservas de grafite, 50% das reservas de ferro, 35% das reservas de bauxita, 55% das reservas de cromo, 28% das reservas de prata e 98% das reservas de nióbio. Todos esses minérios são estratégicos para as tecnologias contemporâneas.
O Novo Banco de Desenvolvimento (também conhecido como Banco dos BRICS) também é uma expressão dessa evolução dos BRICS. O banco, que surgiu há pouco mais de 10 anos, vai na contramão do sistema bancário típico do financismo capitalista liberal ao operar com um capital fixo e estável, sem tomar depósitos para utilizá-los para fins especulativos. De um começo bem lento, hoje o Banco dos BRICS já conta com mais de 100 projetos aprovados, em sua maioria no âmbito do investimento em infraestrutura de transportes e no aprimoramento energético. E mesmo países que não são membros dos BRICS ou do sistema de parcerias já passaram a recorrer ao banco, como no caso da Colômbia e do Uzbequistão.
Também deveríamos destacar os avanços recentes dos BRICS tanto na busca por um sistema de pagamentos internacionais alternativo ao SWIFT, o BRICS Pay, e também no desenvolvimento de um CBDC próprio para os intercâmbios econômico-financeiros entre países membros ou interessados, o BRICS Bridge. Em paralelo a isso, os países discutem de forma bem avançada a possibilidade de uma moeda internacional, a UNIT, parcialmente lastreada em ouro, para facilitar trocas comerciais.
Mais recentemente, especialmente a Rússia e a China têm assumido posturas ousadas na defesa da reforma das instituições e do sistema internacional enquanto tal, no sentido de garantir maior representatividade e uma maior equanimidade nas relações internacionais.
É possível tirar de todas essas informações algumas conclusões importantes: a principal é o fato de que os BRICS se tornaram centrais na geopolítica e na economia. O bloco já supera, em muito, o papel internacional do G7. Simultaneamente, porém, há impasses internos por causa de determinadas fragilidades inerentes ao seu formato atual, em que se faz ausente um “executivo” da organização, o que poderia lhe garantir maior unidade e maior capacidade de projetar iniciativas no longo prazo e avançar mais rápido em seus projetos.