Em Barcelona, esquerda troca o ícone de Fidel Castro pela «democracia» da OTAN
O cenário que se desenha é o da dissolução das esquerdas ocidentais num progressismo woke inventado pelo capital financeiro. Junte-se a nós no Telegram , Twitter e VK . Escreva para nós: info@strategic-culture.su Nos dias 17 e 18 de abril, Barcelona sediou a primeira Cúpula ou Mobilização Progressista Global, em tese liderada por Pedro Sánchez da Espanha e Lula do Brasil, feita porém sob os auspícios da Open Society Foundation. Não há muita informação disponível sobre o financiamento. No website oficial , lemos somente que “este website recebe apoio financeiro do Parlamento Europeu”, não sendo possível concluir daí que se trate da única fonte de financiamento. Chama a atenção, porém, que em meio aos chefes de Estado, burocratas e políticos, consta como palestrantes Pedro Abramovay na condição de Vice-Presidente da Open Society. Alex Soros (filho e herdeiro do nonagenário George) foi prestigiar o evento. Sem papas na língua, o Jewish Insider referiu-se ao encontro como “ Cúpula de Alex Soros ”. Ainda assim, a OSF não foi a única grande ONG a marcar presença, pois a Bill & Melinda Gates Foundation também tinha um representante entre os palestrantes. Os nomes das salas ajudam a ver as preferências ideológicas da organização: Salvador Allende, Angela Davis, Nelson Mandela, Dolores Huerta, Anna Lindh, Hannah Arendt, Frida Kahlo, Edward Said e Ernest Lluch. Com certeza alguém na comissão organizadora decidiu colocar um número exagerado de mulheres e cuidou para que houvesse somente um “homem branco cis hétero” (o último dos citados, que é espanhol – Allende não conta porque os iberoamericanos são “latinx” na cabeça desse pessoal). Dentre todos esses nomes, só um tem relação histórica com o comunismo: Angela Davis. No entanto, nos dias de hoje ela é bem mais reconhecida como a entidade bi-oprimida mulher-negra do que comunista. E, até mesmo nos seus dias de comunista, o separatismo racial dos Panteras Negras era de um espírito contrário ao ideal marxista de fraternidade entre os povos do mundo. Não à toa, o anarcocapitalista Murray Rothbard, em sua fase esquerdista, posicionava-se em favor do separatismo negro e do separatismo branco, corretamente entendidos como coerentes entre si. O que salta aos olhos no evento que pretende reunir a esquerda global são as ausências de representantes de Cuba, Venezuela e Bolívia entre os palestrantes. Constavam Petro e Yamandu Orsi, presidente do Uruguai. Sheinbaum até compareceu, mas não palestrou. Dentre os políticos da esquerda sul-americana, constavam como palestrantes chilenos, argentinos e mexicanos. Vale notar que o primeiro ministro de Kosovo – um país inventado pela OTAN – constava como palestrante. *** Neste século, a organização ideológica de esquerda mais icônica na Ibero-América era o Foro de São Paulo. De meados da década de 2000 a meados da década de 2010, as lideranças evidentes da esquerda latino-americana eram Fidel Castro (1926 – 2016), Hugo Chávez (1954 – 2013), Evo Morales e Lula – este último, uma figura um tanto dúbia, que transitava entre a amizade de Caracas e editoriais favoráveis da Economist . Obviamente, a estrela dentre esses líderes era Fidel Castro, que tinha um alinhamento histórico com Moscou e era, por assim dizer, o farol latino-americano das esquerdas. O próprio Foro de São Paulo surgiu no começo da década de 1990 com a finalidade de se reorganizar diante do fim da União Soviética. Assim, mesmo que a Rússia não estivesse mais tão presente na esquerda ibero-americana como antes, a URSS ainda era o farol da sua identidade, um sol cuja luz Cuba refletia tal como a lua. Nos dias de hoje, a superestimação da importância de Moscou para a esquerda global faz com que se esqueçam as grandes ondas de influência norte-americana. A primeira deu-se a partir de 1968, com a psicodelia e a revolução sexual; a segunda na década de 2010, com o wokismo. Trata-se, no frigir dos ovos, de uma esquerda liberal e anticomunista que acabou influenciando os comunistas do mundo Ocidental, que passaram da guerrilha à tanga de crochê . Como o feminismo e o combate ao racismo eram também bandeiras soviéticas, gozava de certa plausibilidade a expectativa de compatibilizar ambos os influxos. Não obstante, o resultado final foi a substituição de qualquer reivindicação de melhoria dos padrões de vida da classe trabalhadora pela implementação de políticas DEI, criadas no governo Nixon, que tinham o fito de enfraquecer os trabalhadores por meio da divisão racial. Historicamente, a classe trabalhadora nos EUA sempre teve dificuldade de se unificar por causa das rivalidades entre grupos populacionais: os WASP odiando os imigrantes irlandeses, depois os anglófonos odiando os imigrantes italianos, e assim sucessivamente. As políticas identitárias instrumentalizam o imigrante e a mulher para combater o conjunto ao qual pertencia a maioria dos trabalhadores do primeiro mundo: o homem branco pai de família. Se do lado racialista esse grupo era atacado por ser branco, do lado da revolução sexual é atacado por achar que tem o direito de ganhar o suficiente para sustentar uma família, em vez de ser um consumidor drogado e atomizado. Na América do Sul, podemos dizer com alguma tranquilidade que há países cuja esquerda não tem muita afinidade com o Foro de São Paulo e é sobretudo woke . Ao contrário de Cuba, Venezuela e Bolívia, esses países estão entre aqueles cujos políticos compareceram entre os palestrantes em Barcelona: Chile, Uruguai e Colômbia. Michelle Bachelet, do Chile, não se bicava com Chávez; o proto- woke Mujica criticava-lhe o socialismo; e a Colômbia, um quintal dos EUA, só elege presidentes liberais (após uma porção de direitistas, veio Petro, que tinha muitas tensões com Maduro; os colombianos próximos do Foro de São Paulo eram os membros das FARC, parte do quais compuseram um partido nanico com péssimo desempenho eleitoral). *** Os comunistas russos e chineses pegaram imensos países feudais e transformaram numa potência moderna. No Irã, os revolucionários xiitas cuidaram da soberania do país e hoje exibem uma grande autonomia científica e tecnológica que os capacita a enfrentar os Estados Unidos. Infelizmente, na América do Sul, toda a esquerda posterior à Guerra Fria optou por parar de se desenvolver e resolveu governar só distribuindo renda para ganhar as próximas eleições. Além disso, tornou-se muito vulnerável à retórica americana da democracia. A Venezuela chavista exportava petróleo e importava todo o resto – até comida. O Brasil, que no período militar se desenvolveu muito e desde então contava com uma gigantesca estrutura de pesquisa universitária, preferiu tratar essa estrutura como um mecanismo de distribuição de diplomas, achando que isso era justiça social. O Brasil e a Argentina são potências da agricultura mundial – mas, sendo uma agricultura que requer pouca mão de obra, não geram empregos suficientes para fazer o grosso de sua população prosperar. Essas mazelas da América do Sul não são de todo estranhas aos EUA e à Europa, já que ambas, para agradar o capital financeiro, exportaram os seus empregos industriais para a China. No caso da Europa, ainda há a questão energética (especialmente com a agenda anti-nuclear e anti-Rússia) a solapar a indústria. Podemos dizer então que a esquerda sul-americana concorda com a burocracia da UE e com a esquerda dos EUA na medida em que adota como “progressista” uma agenda de gestão da miséria. Todos veem um bolo pequeno a ser dividido e resolvem fazer “justiça social” privilegiando travestis insolentes ou imigrantes estupradores. Assim, essas elites burocráticas subservientes ao capital especulativo têm esperanças de que o povo se dedique a odiar somente travestis e imigrantes, em vez alçar os olhos para as causas. O cenário que se desenha é o da dissolução das esquerdas ocidentais num progressismo woke inventado pelo capital financeiro que condena o “populismo” e a extinção da esquerda ibero-americana que via no líder de massas as esperanças de derrotar o imperialismo.