O problema da invasão do Irã
O mais provável permanece sendo o fracasso da operação anfíbia e o desperdício de vidas estadunidenses. Junte-se a nós no Telegram , Twitter e VK . Escreva para nós: info@strategic-culture.su No atual andamento dos eventos médio-orientais, não fazemos ideia se os EUA vão simplesmente ir abandonando o conflito com o Irã para focar em outros objetivos diante do fracasso dos seus planos contra Teerã, ou se simplesmente vão dobrar a aposta e tentar desembarcar tropas ali. Essa guerra não pode ser analisada de uma perspectiva do interesse econômico ou de objetivos geopolíticos necessários e realistas, por parte dos EUA, de modo que as suas decisões são usualmente irracionais e, portanto, pouco previsíveis. Suponhamos, portanto, que os EUA de fato estejam planejando dobrar a aposta e lançar uma invasão do Irã por terra. Em primeiro lugar, por que eles fariam isso? Porque a única maneira de derrotar militarmente uma potência regional ou mundial é através do uso de forças terrestres. É possível bombardear uma micronação até a submissão, uma potência, mesmo que apenas regional, não. Ataques de decapitação tampouco funcionam. Embargos e bloqueios navais menos ainda. Tão somente a atuação de forças terrestres, ou seja, de exércitos no sentido clássico do termo, podem empreender a ocupação territorial, a deposição de um governo e infligir a derrota estratégica e definitiva de um inimigo que não seja uma micronação. A motivação seria, portanto, impor uma derrota clara e incontornável ao Irã, dando-lhe um xeque-mate ou, no mínimo, um xeque. Em outras palavras, podemos estar falando tanto de uma operação visando uma mudança de regime por via terrestre (xeque-mate) ou a ocupação de um ou mais pontos estratégicos visando forçar negociações em condições favoráveis aos EUA, sem visar a destruição definitiva do inimigo (xeque). Praticamente só se fala na possibilidade de um desembarque na Ilha Kharg, mas há várias outras hipóteses de alvo. A tomada de Qeshm, por exemplo, e das outras ilhas do Estreito de Ormuz. A própria tomada de Bandar Abbas, que fica bem de frente para o Estreito. Outros especulam sobre uma operação mais ambiciosa no porto de Chabahar, no Balochistão iraniano. Agora, bem, tudo é possível, inclusive uma operação anfíbia (ou seja, de desembarque de tropas em território hostil) de sucesso, que alcance seus objetivos. Mas os precedentes históricos não são muito favoráveis às possíveis pretensões dos EUA. Excetuando em algumas condições muito especiais, não existe um histórico de operações anfíbias que tenham constituído vitórias. Rapidamente apareceria aqueles que apelariam ao famoso desembarque na Normandia, a Operação Overlord, na qual uma vanguarda de 160 mil homens cruzou o Canal da Mancha para iniciar uma invasão da Europa “germanizada”. Estamos, porém, num caso muito específico. Os alemães, no teatro da França setentrional, estavam em franca minoria em relação às tropas aliadas – 1 mês e meio depois do desembarque, eram 300 mil alemães contra 1 milhão e 500 mil aliados. Ademais, 80% dos homens e recursos militares da Alemanha estavam sendo utilizados na Frente Oriental contra a URSS. Em outras palavras, a Alemanha travava uma guerra de duas frentes. A essa altura, ademais, os Aliados já haviam adquirido plena supremacia aérea sobre os alemães. A Luftwaffe não existia mais, então os soldados aliados não tinham que se preocupar com a atuação da “artilharia aérea” alemã. Nenhuma dessas condições se faz presente no Irã. Os iranianos estarão em maioria diante de qualquer operação anfíbia ocidental. São 350 mil membros ativos da Artesh, 200 mil homens da Guarda Revolucionária e nos Basij são 90 mil homens na ativa, 400 mil à disposição na reserva e até 1 milhão ou mais mobilizáveis. Os iranianos, aliás, não estão travando uma guerra terrestre de duas frentes. Parece, porém, que os EUA estão tentando solucionar isso pela instrumentalização dos curdos como força de distração para atrair tropas iranianas para o noroeste enquanto possíveis desembarques são realizados ao sul. O problema aí, obviamente, é que sob qualquer ângulo, os curdos não constituem uma ameaça suficientemente forte para obrigar os iranianos a deslocar a maior parte de suas forças para noroeste. Ao contrário, os iranianos já estão mantendo os curdos em xeque apenas com ataques missilísticos e de drones, bem como algumas poucas, rápidas e pontuais ações terrestres. Um ataque curdo teria que se preocupar, ademais, com a própria retaguarda diante das milícias xiitas iraquianas, e com a hipótese de uma intervenção turca. Mesmo a supremacia aérea é duvidosa. As missões de bombardeio contra o Irã evitam o espaço aéreo iraniano. Os aviões disparam de longe, seja do Iraque, da Arábia Saudita ou de outros países. Quando entram no espaço aéreo iraniano, muitas vezes são atingidos e acabam caindo ou tendo que fazer pouso de emergência. O Irã pode ter perdido ou simplesmente desistido de utilizar a sua própria força aérea, mas no que concerne o uso como suporte tático para a infantaria e fuzileiros, os mísseis e drones podem desempenhar a mesma função. Quão viável seria o sucesso de uma operação terrestre com grande inferioridade numérica, tendo que enfrentar boa parte da força militar iraniana e sem supremacia aérea? Poder-se-ia apelar a outros exemplos históricos. Por exemplo, a campanha estadunidense no Pacífico contra o Japão? O primeiro problema da comparação é que a maior parte da força japonesa estava atolada no Japão. O que o Japão tinha em suas ilhas no Pacífico eram pequenas forças dispersas, quase sem apoio aéreo e pouquíssimo apoio naval. O golpe final que convenceu, porém, o Japão a se render foi a invasão da Manchúria pelos soviéticos numa grande massa militar, e não as operações anfíbias dos EUA. A Guerra da Crimeia? Ali a realidade é que o objetivo franco-britânico era extremamente limitado e, de fato, também a Rússia manteve a maioria de suas tropas perto do Báltico para evitar uma invasão por aquela direção, bem como nas proximidades da Polônia. Invasão da Sicília? Temos a repetição dos cenários e condições já explicitados: a Itália já havia perdido boa parte de suas tropas no norte da África, não tinha mais suporte aéreo ou naval, estavam em minoria e o governo italiano já não queria lutar e em breve daria um golpe de Estado em Mussolini. Quanto a quase todas as outras operações anfíbias nos últimos 200 anos? Fracassaram. O caso clássico sendo a campanha de Galípoli, quando o atrasado e frágil exército otomano conseguiu fixar e prendar as duas cabeças de praia da Entente, desgastando-as até forçar os britânicos a evacuarem as tropas ou transferi-las para outras frentes. É necessário compreender que a água é uma das maiores dificuldades da guerra e poucas coisas protegem um país melhor do que os mares. Quantas vezes, por exemplo, se invadiu o Reino Unido? Ou mesmo os EUA, que perante os seus principais rivais é como se fosse uma ilha? Enfim, pode ser que os EUA de fato tomem essa decisão e se ela for uma operação limitada, apenas para forçar negociações, se vier acompanhada por uma campanha aérea devastadora e por uma invasão em larga escala dos curdos, aí existe uma pequena chance da operação ser bem-sucedida. Mas são muitos “se”. O mais provável permanece sendo o fracasso da operação anfíbia e o desperdício de vidas estadunidenses.