Encíclica papal critica IA que nega atendimento médico, renda básica universal e substituição de humanos por robôs. Contra Davos e o Fim da História. Junte-se a nós no Telegram , Twitter e VK . Escreva para nós: info@strategic-culture.su Por trás das formulações ensaboadas, a encíclica Magnifica Humanitas é uma verdadeira metralhadora giratória. Um exemplo de formulação ensaboada é o elogio à Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, na seção intitulada “O altíssimo valor dos direitos humanos”. Tal declaração é, segundo a encíclica, “uma pedra miliária no caminho do progresso moral da humanidade”. Logo depois, porém, lemos que “entre estes [direitos], o primeiro direito humano é o direito à vida, desde a concepção ao seu fim natural, sem o qual é impossível exercer qualquer outro direito. Quando este direito fundamental é negado – como acontece no aborto provocado, no assassinato de inocentes e na eutanásia –, deparamo-nos com escolhas que a Igreja considera gravemente ilícitas.”
Acontece que a Declaração de 1948 não determina que o direito à vida se estende desde a concepção até a morte natural. Tanto que o maior fiador da declaração, os Estados Unidos, poucas décadas depois imporia a liberação do aborto, e seus filantropos se converteriam em grandes apóstolos mundiais da prática, transformando-a até num direito humano a ser garantido pela ONU. No fim, o que a Igreja faz é elogiar as instituições seculares na medida em que refletem os ensinamentos da Igreja . O elogio à ONU de 1948 esconde mal uma condenação à ONU atual.
No entanto, a encíclica passa longe de pedir o fim da ONU. Em vez disso, clama por reformas institucionais. Na seção “A crise do multilateralismo”, atribui tal estado de coisas à confiança cega na autossuficiência do mercado para pautar relações sociais: “Depois de 1989, o colapso na Europa dos regimes comunistas foi acompanhado por uma globalização predominantemente econômica, desprovida de uma arquitetura política adequada capaz de sustentar o diálogo e a paz. Confiou-se quase cegamente aos mercados a capacidade de produzir bem-estar, democracia e estabilidade”. Ou seja, entre os alvos da metralhadora giratória da Magnifica Humanitas , está o triunfalismo neoliberal do Fim da História.
Mas o assunto principal é a inteligência artificial. Assim, vale destacar um ponto da vida civil que põe a encíclica em posição diametralmente oposta à de Klaus Schwab: a confiança na IA para tomada de decisão. Consta no parágrafo 105 que:
“Para que a IA respeite a dignidade humana e sirva verdadeiramente o bem comum, é essencial que as responsabilidades sejam claras em todas as etapas: desde quem concebe e treina os sistemas a quem os utiliza e decide confiar-lhes escolhas concretas. Em muitos casos, contudo, os processos internos que conduzem a um resultado podem ser pouco transparentes, o que torna mais difícil atribuir responsabilidades e corrigir erros. É aqui que se torna decisivo o que chamamos de ‘responsabilização’ ( accountability a possibilidade de identificar quem deve ‘prestar contas’ das decisões, motivá-las, controlá-las e, quando necessário, contestá-las, reparando os danos daí decorrentes.”
Há poucos dias, no noticiário brasileiro , apareceu um exemplo do problema apontado. Uma jovem psicóloga que sofria de pedras na vesícula foi ao sistema público de saúde. Lá, o quadro evoluiu rápido: os médicos a viram perder a sensibilidade dos membros e sofrer uma hemorragia. Constataram que precisava de uma rápida transferência para a UTI, que ficava em outra cidade. No entanto, o sistema de saúde naquele estado (Minas Gerais) havia acabado de implementar uma IA para alocar os pacientes nas vagas, e a IA decidiu que o caso da jovem não era grave o suficiente. Os médicos ficaram de mãos atadas diante do sistema informatizado e ela morreu. Diante das queixas da família, o governo estadual se defende alegando ter seguido os protocolos – como se a sensação de neutralidade e cientificidade passada pela IA fosse garantia de máxima responsabilidade. A realidade, porém, é que responsabilidade impessoal é como um círculo quadrado.
Essa história lembra a de Luigi Mangione, que assassinou o CEO de um grande plano de saúde responsável pela decisão de usar IA para negar atendimento médico aos segurados. Se tanto o sistema de saúde privado dos EUA quanto o sistema de saúde público brasileiro estão usando IA para negar atendimento médico sem que ninguém seja percebido como responsável, é muito improvável que se trate de coincidência.
Na verdade, o projeto da substituição do profissional de saúde por robôs é explicitado por Klaus Schwab pelo menos desde 2016, com a publicação de A quarta revolução industrial . Nessa obra, o fundador do Fórum Econômico Mundial, também conhecido como Fórum de Davos, considera que a substituição de médicos por robôs é apenas um problema emocional subjetivo, e não um problema técnico da maior objetividade. Pergunta no Quadro H: “Consultaríamos um médico-robô controlado por IA que poderia dar diagnósticos corretos, perfeitos ou quase perfeitos – ou ficaríamos com o médico humano que nos conhece há anos e mantém aquele comportamento tranquilizador ao lado da cama?” Se levarmos em conta o caso das vítimas do CEO assassinado por Mangione, sabemos que ter um médico ao lado da cama é um luxo para os poucos que podem pagar. E uma das benesses prometidas por Klaus Schwab é o barateamento generalizado.
O cenário descrito nessa obra é o de um progresso tecnológico que levaria inexoravelmente ao desemprego em massa, desde as profissões mais prestigiadas da alta classe média, como a medicina, até o motorista de aplicativo, que seria substituído por um carro inteligente. Em vez de se perguntar pelo sentido de gastar tanto dinheiro para substituir de modo precário o trabalhador humano, Schwab presume sempre inexorabilidade. Segundo ele, haverá desemprego em massa, nem todos os trabalhadores conseguirão se reinventar, os países pobres sofrerão mais. E, não obstante, é preciso tomar cuidado para não gerar revoltas. O lado positivo é que tudo será barateado. E fica implícito, portanto, que ser pobre não será um problema tão grande.
A ideia que paira no ar, ainda que não seja formulada de maneira explícita no livro, é a da renda básica universal; ou seja, de o pobre viver de auxílio e usar os serviços de um médico-robô que cabe no bolso para se tratar. Afinal, se as pessoas ficarão desempregadas em massa e se é desejável que elas não se revoltem, resta um salário desvinculado de emprego. De fato, o Fórum Mundial tem em seu site uma porção de artigos sobre experimentações com a renda básica universal, citando experimentos europeus , cobrando mais testes , ou até mesmo defendendo a medida como uma solução para as desigualdades sociais.
Esse é outro assunto da Magnifica Humanitas. Nos parágrafos 148 e 149, lemos: “Feitos à imagem do Criador, por meio das nossas obras, prolongamos de certa forma a sua: contribuímos para o progresso da sociedade e para a construção do bem comum […]. Por estas razões, o trabalho não é um mero instrumento, mas expressa e enriquece a dignidade da nossa vida. É uma exigência inscrita na condição humana, um ordinário caminho para a maturidade, o desenvolvimento e a realização pessoal. Nesta perspectiva, por vezes e em situações de emergência, continuam a ser necessários apoios econômicos para os pobres, mas não podem tornar-se a única resposta, pois o objetivo é dar a cada um condições para viver dignamente através do próprio trabalho.”
Vale citar também este outro trecho, que critica a sociedade prevista por Schwab, no parágrafo 154: “Uma sociedade que só garantisse emprego a uma pequena parte da população exporia muitos a uma condição de inatividade forçada, de ausência de responsabilidades, de falta de compromissos e estímulos diários, com consequente empobrecimento humano e cultural, em contraste com o elevado nível de desenvolvimento técnico. Encontrar-nos-íamos perante um paradoxo de progresso material e retrocesso antropológico, em que desapareceriam as condições para uma paz social justa e estável.”
De fato, o mundo desenhado pelas elites do capital transnacional é o que vem sendo implementado pelo neoliberalismo por todo o Ocidente. É como se a dignidade do homem estivesse apenas na condição de consumidor, e todos pudéssemos nos realizar caso tivéssemos um punhado de produtos da Apple depois de termos nossas necessidades de subsistência satisfeitas. O resultado desse projeto é progresso material e retrocesso antropológico, como muito bem dito na encíclica: as pessoas que vivem sem outro horizonte que não o do consumo e da posse de bens materiais, pois não desenvolveram suas capacidades cognitivas e sociais. É a civilização antissocial pautada por influencers de Instagram que ostentam vidas de luxo. O mundo precisa voltar logo a ter ideais mais elevados.