René Girard, o pensador «cristão» de Peter Thiel


Quando Peter Thiel propuser algo que cause justa indignação popular, teremos de ouvir que somos satânicos e anticristãos. Junte-se a nós no Telegram , Twitter e VK . Escreva para nós: info@strategic-culture.su A nova eleição de Trump, ocorrida em 2024, pôs os holofotes sobre JD Vance, atual vice-presidente. Sem dúvida, uma figura tão importante quanto peculiar: importante porque Trump não poderá se reeleger, e peculiar porque JD Vance representa uma nova direita conversa ao catolicismo no maior país protestante da História. A coisa é tanto mais estranha quando sabemos que JD Vance é ligado a Peter Thiel: o sinistro dono da sinistra Palantir. E Peter Thiel, longe de ser desinteressado por temas teológicos, tem, ultimamente, manifestado uma obsessão pelo Anticristo. Diante das suspeitas, o homossexual assumido, casado com um homem e pai por meio de barriga de aluguel, garante ser cristão e conservador. No mínimo desde 2014 , Peter Thiel declara que o filósofo René Girard (1923 – 2015) exerce profunda influência sobre sua visão de mundo. Mais ainda, disse que promove a “antropologia cristã ” de René Girard. Thiel apresentou tal antropologia a JD Vance, que se converteu ao catolicismo em 2019 e atribui a Girard grande influência em sua conversão. Sendo brasileira, Girard já me deixava com uma pulga atrás da orelha, porque desde a década de 1990 até a sua morte em 2022, um propagandista neoconservador chamado Olavo de Carvalho fez gerações de brasileiros de direita acreditarem que Girard é um pensador da maior grandeza, uma espécie de Freud católico que é melhor que Freud por ser católico. Não obstante, quando via essa antropologia posta em prática, era um tanto chocante constatar que tudo se explicava por uma inveja irracional. Lá fui eu, então, ler Girard. E para isso escolhi Eu via Satanás cair como um relâmpago , publicado pela primeira vez em 1999. Embora tenha nascido na França, aos 23 anos Girard foi para os Estados Unidos estudar; doutorou-se em Bloomington (Indiana), e, de 1991 até a aposentadoria, trabalhou em Stanford, onde morreu aos 91 anos. Faz tanto sentido dizer que Girard é um filósofo francês quanto dizer que Byung-Chul Han, um hegeliano que dá aulas em Berlim, é um filósofo coreano. *** A obra tem o insólito propósito de ser uma apologia científica do cristianismo. Segundo Girard, os estudos da antropologia cultural, feitos por anti-cristãos, levaram os ocidentais a enxergarem a Paixão de Cristo como mais um mito entre uma série de outros mitos que são postos lado a lado, em maneira de comparação. Desde a descoberta da América, as comparações com outras sociedades fariam o europeu pensar que a sua religião é só mais uma. Por isso, a apologia científica de Girard consiste em mostrar o que, na Paixão, a torna um evento distinto de todos os mitos. Tal ciência, portanto, é a antropologia. O pretexto científico dá a Girard a liberdade tácita para fazer uma tabula rasa da doutrina católica… Ou de qualquer outra teologia cristã; mas digo católica porque Girard era católico. O catolicismo tem uma antropologia. Girard, assim, presume que tal antropologia seja anticientífica, sendo a científica a sua própria. Separação entre fé e razão, porém, não é coisa católica. Por aí já se vê Thiel escolhe promover justo o elemento pré-cristão (“científico”) de Girard, chamando-o de cristão. Tratando de Girard, faz mais sentido falar em cristianismo antropológico, entendido como cristianismo científico, do que em antropologia cristã. Fazendo de conta que Aristóteles e Tomás de Aquino não existem ou não são científicos, Girard determina “cientificamente” uma característica que diferencia o homem dos animais: não é a razão, mas o desejo mimético. Mais de 2000 anos de História correram sem que ninguém, antes de Girard, se desse conta de que uma forma de desejo tão específica existe e é tão importante que diferencia o homem dos animais. Esse desejo mimético é o desejo de imitar os outros, e tem um papel benéfico na educação. No entanto, a porca torce o rabo quando todos desejamos o que os outros têm: aí partimos para uma guerra de todos contra todos – coisa destituída de historicidade que provavelmente foi introduzida no Ocidente por um cabalista, como vimos aqui . Para Girard, nós não desejamos as coisas porque elas nos parecem boas, mas única e exclusivamente porque outros as têm e nós queremos imitá-los. Nós não sabemos disso; apenas desejamos irrefletidamente, com todos copiando-se uns aos outros sem saber por quê. Só Deus é tão sagaz quanto Girard: por isso, criou os 10 mandamentos, muitos dos quais proíbem a cobiça, e cobiça em hebraico é o nome pelo qual Deus escolheu chamar o desejo mimético. Os tradutores, que não eram Girard nem Deus, não entenderam. Notemos bem o quão contrário à observação ordinária é essa ideia. Se um homem vir uma mulher lindíssima de rosto e de corpo, ele não irá desejá-la a menos que presuma que essa mulher é o objeto de desejo de outros homens. (Um homossexual como Thiel pode achar isso plausível – aí resta explicar a própria homossexualidade.) Além disso, o desejo do homem por tal mulher aumentará se ele souber que a mulher em questão é casada e tem um marido ciumento. Ora, se fosse assim, nenhum cônjuge deixaria o outro usar aliança, porque o desejo mimético, sendo da essência do homem, faria com que todos desejassem a mulher que é do próximo em vez da solteira. Em resumo, a antropologia de Girard coloca o homem não como imago Dei , mas como um invejoso irracional pronto para pilhar o seu próximo. Quem acha que isso é uma versão “científica” do pecado original deveria se perguntar como um ser à imagem e semelhança de Deus pode ter sua essência justamente no pecado. Segundo Girard, o que impede a dissolução social é o mecanismo do bode expiatório. Embora não diga, o verdadeiro caso paradigmático da criação e da manutenção da ordem para Girard é o “milagre” de um certo Apolônio de Tiana, um pagão reacionário da Era Cristã. O “milagre” consistiu em apontar um cego como um demônio responsável pela peste na cidade e persuadir a multidão a apedrejá-lo até a morte. Depois disso, a peste passa. A sociedade, que antes enfrentava um problema que ameaçava a coesão social, fez do cego um bode expiatório e assim pôde manter a ordem. Segundo Girard, só foi difícil atirar a primeira pedra, porque depois os homens se imitam graças ao desejo mimético. (Por isso Jesus, muito inteirado da teoria do desejo mimético, desafia a lançarem a primeira pedra na adúltera.) Essa conflagração tempestiva do desejo mimético equivale a Satanás, “cientificamente” reduzido a um estado psicológico humano. Ao unir a multidão contra o inimigo, Satanás expulsa a si próprio por meio dessa catarse sacrificial, após a qual a sociedade está pacificada e coesa. Em vez de considerar que o apologista pagão que relatou o milagre estava mentindo, Girard crê que também a peste era psicológica, como se houvesse, na Antiguidade, relatos de coisas psicológicas designadas como “peste” matando as pessoas. A sociedade humana, então, se estruturaria no mito. O apedrejamento do cego seria uma repetição do que se passou com Édipo e em todas as sociedades antes do cristianismo: um assassinato ou expurgo funda a ordem social por meio de uma coesão de linchadores que se imitam uns aos outros. Passa-se assim do “todos contra todos”, do estado de natureza hobbesiano, ao “todos contra um”, do estado social de Girard. Como a tempestade mimética que culmina em linchamento é Satanás, então o responsável pela ordem social é Satanás. Vale destacar que Girard oferece uma interpretação “científica” de Marcos 3, 23-24: “Mas, havendo-os convocado, dizia-lhes em parábolas: Como pode Satanás expulsar a Satanás? Pois, se um reino estiver dividido contra si mesmo, não pode durar.” O contexto era: vendo Jesus fazer exorcismos, os fariseus alegam que Jesus está possuído por Belzebu. Essa passagem é da réplica de Jesus. Segundo Girard, no capítulo III, “Longe de negar a realidade da autoexpulsão satânica, esse texto a afirma. A prova de que Satanás possui tal poder é a afirmação frequentemente repetida de que ele está chegando ao seu fim. A queda próxima de Satanás profetizada por Cristo não se distingue do seu poder de autoexpulsão.” Assim, chama a atenção a passividade absoluta de Jesus. Nem exorcismos fazia, pois é Satanás quem se autoexpulsa. Toda a agência, seja para o bem ou para o mal, pertence a Satanás, que não passa de um mecanismo psicológico derivado da característica essencial do homem: “Satanás é o mimetismo que convence a comunidade inteira, unânime, de que essa culpa é real”; “Ele [o diabo] é inteiramente mimético, o que equivale a dizer, inexistente”, diz Girard em distintas passagens do capítulo III. Mas antes de prosseguirmos, é preciso notar que essa é uma filosofia social muito ruim. Se Girard estiver certo, o povo não vai ficar revoltado com a inflação de alimentos se lhe for dada a oportunidade de linchar alguém. Será que isso corresponde à realidade? Resta chegarmos ao comparatismo prometido. O caso de Jesus é diferente de Édipo, do cego de Tiana, do bode expiatório e de tantos outros porque aí sabe-se que a vítima é inocente. Súbito, as tensões sociais têm em Jesus o seu alvo. Por um contágio mimético, todos, sem exceção, passam a odiar Jesus e a quererem vê-lo morto. Até mesmo Pedro, ao negar Jesus três vezes, estaria contagiado pelo desejo mimético. Girard “sabe” que o problema de Pedro não era uma covardia muito compreensível, mas um ódio mimético por Jesus. Assim, tendo sido odiado por todos em absoluta unanimidade (o que logicamente inclui Maria, embora Girard não diga), Jesus é crucificado mesmo sendo sabidamente inocente. Isso, de alguma maneira, é uma armadilha contra Satanás. A Paixão de Cristo foi uma espécie de fábula individualista na qual aprendemos que os perseguidos pela multidão são inocentes, de modo que devemos considerar satânicas as perseguições unânimes. Cristo não é diferente de José do Egito, que, inocente, foi vendido como escravo pelos irmãos por pura inveja. Assim, existe uma tradição judaico-cristã de contar a história das vítimas, e essa tradição é única porque nos mitos, que são mentirosos, as vítimas são sempre culpadas. A psicanálise representaria a descristianização do Ocidente porque nela somos todos culpados de desejos parricidas e incestuosos; somos todos Édipo. Por aí se entende por que a direita anti-woke gosta de Girard. Ele escreveu uma teoria contra o cancelameno woke antes do advento do wokismo e, ao mesmo tempo, criticou a obsessão laicista politicamente correta. Segundo ele, é uma imitação invejosa do cristianismo, na medida em que reconhece o valor das vítimas, porém empreende linchamentos com base nisso. No entanto, o que salta aos olhos é a ausência de conteúdo moral da vítima. Às vezes a indignação unânime da sociedade é justificada. No Brasil, uma moça bem nascida matou os pais para ficar com o dinheiro saiu da cadeia depois de cumprir apenas 7 anos. Hoje é rica e casou com um admirador médico, enquanto seu irmão mais novo virou um drogado. Assim, não dá para diferenciar Jesus e José do Egito de Suzane Von Richtofen: todos são vítimas de um desejo mimético satânico quando a multidão os odeia. Não obstante, Girard prefere comparar Jesus a Dreyfus, como se só inocentes fossem odiados pelo povo. No capítulo IX, Girard escreve: “Quando percebemos como está presente por toda a Bíblia a crítica dos arrebatamentos miméticos e de seus resultados, compreendemos o que há de profundamente bíblico no princípio talmúdico frequentemente citado por Emmanuel Lévinas: ‘Se todo o mundo estiver de acordo para condenar um acusado, soltem-no, ele deve ser um inocente.’” Que fique a lição: quando Peter Thiel propuser algo que cause justa indignação popular, teremos de ouvir que somos satânicos e anticristãos.

Published: Modified: Back to Voices